O pastor, o jornalista, a rola e uma oportunidade de debate perdida

Esta edição do Deu na TV!  abre uma exceção para o veículo de comunicação que antecede  a “Máquina de Fazer Doido” e apresenta uma edição especial: Deu no Rádio!, e ganhou as ruas e redes sociais a resposta dada pelo jornalista Ricardo Boechat ao pastor-deputado Silas Malafaia. Boechat, um dia antes, havia falado sobre intolerância religiosa, em referência ao episódio da menina candomblecista agredida com uma pedrada no Rio de Janeiro, por dois homens segurando bíblias, segundo noticiado.

Em uma fala articulada e refletida, Boechat expôs os riscos do recrudescimento do ódio religioso:

Malafaia vestiu a carapuça e reagiu por twitter, com a habitual eloquência de pitbull criado no soco, proferindo ataques pessoais a Boechat, xingando-o de “paspalho” e “falastrão”, e, ainda, conclamando o jornalista a um debate. Ao receber a mensagem do pastor, o jornalista devolveu no mesmo nível. Para quem ainda não ouviu, segue aqui a íntegra da querela:

Muita gente vibrou, e uns poucos críticos questionaram (a meu ver, com boa dose de razão) o dito teor falocêntrico e homofóbico da frase no modo imperativo que ordenava  que Malafaia fosse “procurar uma rola”. Ao que me parece, o tema já contou com excelentes contribuições,como esta, no blog Biscate Social Club, e e esta, na coluna Questão de Gênero na página da Revista Fórum, e é por isso que, neste espaço, quero é lamentar a oportunidade perdida de se refletir sobre a gravidade do fato que é ter uma figura pública como Silas Malafaia em arenas de debate tão estratégicas – e por isso mesmo perigosas – como as redes de televisão evangélicas e o Congresso Nacional.

Posso dizer que tenho algum conhecimento de causa para comentar o discurso de Malafaia: no artigo Quando o poder da palavra constrói a palavra do poder tive a paciência que só o interesse científico é capaz de construir para transcrever duas falas inteiras do pastor, com a finalidade de analisar se havia ou não conteúdos identificáveis como discursos de ódio em sua fala. Sim, seu tom é arrogante, prepotente, agressivo e calculadamente insuportável, com sua retórica tão vazia de argumentos quanto cheia de demagogia convincente, derramadas em frases empoladas e cheias de efeito, que, aos ouvidos de um interlocutor desatento, até parecem conter silogismos lógicos, quando, na verdade, apenas atacam o outro debatedor.

Sim, Malafaia é capaz, com sua fala, de despertar o que há de pior em muitos nós (e, garanto, aqui me incluo), de fomentar a mais visceral vontade de bradar o pior xingamento que se puder pensar (daí ser problemático equiparar “procurar uma rola” ao pior que se pode desejar a alguém, especialmente a um homem autoproclamado heterossexual. Mas, como disse, deixo essa discussão para os outros textos que já citei). Até porque, para mim, a rola, procurada ou não, é o de menos. Houve, naquele momento em que Malafaia disparou mais um de seus habitualíssimos impropérios rasos, uma incrível oportunidade de, ao vivo e em rede nacional, esclarecer o grave problema de se ter bancadas religiosas no Congresso. De questionar a não tributação dessas instituições que elegem seus pastores manipulando a fé alheia, e porquê isso é um problema. De explicar aos ouvintes que Estado Laico não é o mesmo que Estado Ecumênico (discuti aqui, quando da candidatura do pastor Everaldo nas eleições de 2014). De alertar para o quanto o discurso de ódio disfarçado de proselitismo religioso é perigoso e antidemocrático. De chamar ao debate não Malafaia, mas seus eleitores (sim, porque ele ocupa uma cadeira no parlamento em consequência do voto popular) e convidá-los a refletir sobre sua escolha política. De parar pra se espantar com o ridículo de um parlamentar mandar recadinho ao vivo para um jornalista e xingá-lo de “paspalho falastrão”, em um debate cuja maturidade faria corar de vergonha alheia os coleguinhas da 7ª série.

Mas ninguém sentiu falta. O aplauso, ao que parece, foi geral:

“Finalmente alguém da grande mídia, falou o que estava engasgado na garganta da maioria dos brasileiros, valeu Ricardo Boechat!”

“Me representou!! Exemplo de Jornalista.”

“Você lavou a alma de muitos brasileiros!”

Não quero aqui tecer críticas profissionais a Boechat – como disse, Malafaia e seus congêneres feliciânicos e bolsonáricos são capazes de despertar o pior em cada um de nós. Mas quero refletir o porquê de tantos terem preferido, em detrimento de qualquer argumentação minimamente inteligente, a simploriedade da retorsão imediata – e com ela se satisfazerem. Por que nos identificamos mais com aquele que solta o “grito preso na garganta” do que com aqueles que querem estimular o pensamento crítico?

Cansamos de pensar? Optamos, definitivamente, por rebater em vez de debater?

Não tenho a resposta. Mas, termino aqui com uma indagação, sugerindo a leitura do texto do grande Roberto Tardelli, colega de coluna no portal Justificando: vamos reduzir nosso exercício da liberdade de pensamento e expressão a determinar que Jô Soares deve morrer e Malafaia deve procurar uma rola?

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2 comentários sobre “O pastor, o jornalista, a rola e uma oportunidade de debate perdida

  1. Maíra, adorei sua reflexão, concretizou muitas sensações que estavam “entaladas na garganta” mas não saiam nem na base do grito. E na verdade ainda não saíram de todo. Realmente é uma questão muito intrigante, o que leva o indivíduo abrir mão de sua própria reflexão tão facilmente? Porque a dúvida não é estimulada, mas sim as grandes asserções como “Vai procurar uma rola!”, tão expressivas mas ao mesmo tempo “ocas”? … Realmente perdemos oportunidades…

    • Esres tempos de tantos embates ocos que vivemos realmente dão muito o que pensar. Obrigada pela leitura e comentário! Deu na TV agradece a audiência!

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