Sobre Kate Middleton e as mães “reais”

O Dia das Mães desse ano de 2015 se viu inundado de imagens do casal-conto-de-fadas do século XXI, Princesa Kate Middleton e Príncipe William, lindos, jovens, nobres, ricos e saudáveis, acenando sorridentes ao saírem da maternidade, poucas horas depois do parto da pequena-não-herdeira Charlotte Diana Elizabeth – sim, porque a coroa britânica ainda tem lá seus obstáculos para chegar a uma cabeça feminina (essa determinação da Constituição Inglesa, aliás, motivou o Reino Unido a fazer reservas à Convenção da ONU para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher):

Não bastasse todo o aparato de que só a realeza é capaz para que Kate estivesse linda como uma princesa, seu parto natural e realizado em poucas horas foi motivo de muito alarde nas redes sociais, tornando a moça, repentinamente, de mera Princesa da Inglaterra em Mãe Perfeição, linda, fresca, penteada, maquiada e bem-dormida (para uma mãe recém – parida, mais luxo que ser bem-nascida), acenando diáfana para seus súditos.

Essa imagem da felicidade suprema e da perfeição da maternidade biológica é uma das nossas mais fortes construções culturais: fazendo aqui todas as devidas ressalvas e pedindo desculpas pela falta de metodologia, reuni neste texto de hoje algumas amostras de peças publicitárias que retratam, de alguma forma, a maternidade. Justamente pela total ausência de sistematização, já adianto às estimadas e estimados leitores que não exponho aqui conclusões de uma pesquisa empírica (mas, opa! fica consignada a sugestão para quem se animar!), mas talvez um pequeno campo exploratório para iniciar algumas reflexões sobre os modelos de Mãe que a publicidade costuma oferecer em detrimento de tantas mães, e da quase total ausência de um pai.

Começo com esta peça da linha de produtos de higiene Baby Dove, que afirma não haver “mães perfeitas” mas apenas “mães reais”:

As “mães reais” da peça publicitária “mantêm a calma quando todos já perderam a paciência, espera e não se desespera, sorri quando o que é seu se quebra”, entre outros grandes desprendimentos ilustrados por moças jovens, bonitas (e, portanto, magras), produzidas e sorridentes – tão “reais” (aqui em intencional duplo sentido) quanto Kate Middleton à saída da maternidade.

Não há qualquer pai no cenário, mas é razoável supor que muitos telespectadores presumirão que as moças são casadas (evidentemente com os pais biológicos dos bebês) – vale notar que a jovem mãe que cochila sentada sobre o tapete ostenta uma aliança de casada.

A figura paterna parece ser uma representação rara em peças publicitárias sobre produtos para cuidados de crianças. E, justamente pela raridade, merece menção a propaganda de fraldas Johnson’s:

A peça retrata um casal a brincar com uma criança pequena, e desafio as leitoras e leitores a encontrarem quem assista à propaganda e não enxergue ali um núcleo familiar: embora não haja qualquer texto neste sentido, tratam-se de um homem e uma mulher jovens, com as onipresentes alianças de casamento, a mostrar com pouca margem para dúvidas, que são eles o pai e a mãe (biológicos, preferencialmente) daquele bebê.

É interessante notar que, diferentemente das propagandas de fraldas e shampoos infantis, as propagandas de instituições bancárias parecem mostrar com mais frequência a figura masculina paterna – é somente como O Provedor que O Pai é identificado como um consumidor de um produto por meio do qual ele demonstrará sua preocupação e cuidado com o filho?

Como afirmei parágrafos atrás, não me proponho neste artigo a fazer um levantamento e análise sistematizada de como são retratados os modelos de família tradicional no universo da propaganda. Quero, antes, jogar aqui sementes para refletirmos algumas associações recorrentes em representações de mães, pais e famílias e o quanto isso pode reverberar nas teias sociais.

Uma primeira associação que se depreende é a que se dá entre mulheres e crianças: uma peça publicitária deve pressupor que o consumidor do produto anunciado irá se identificar com os personagens ali retratados. Desta forma, quando temos com tanta frequência propagandas de produtos para o cuidado de crianças protagonizados por mulheres-mães, naturalizamos que esta atividade é própria do gênero feminino. Oculta-se quase que por completo a participação de (ao menos) um pai biológico para que aquela criança tenha vindo ao mundo, e com isso toda a ideia do cuidar passa a ser associada imediatamente a uma função das mulheres: torna-se fácil, assim, entender, por exemplo, que o direito à creche seja classificado como uma demanda da mulher trabalhadora, e não de todo e qualquer funcionário (e mais, da própria criança). No mesmo sentido, reforça-se a divisão sexual do trabalho, categorizando-se profissões como enfermagem e magistério infantil como essencialmente femininas.

Uma segunda associação é aquela estabelecida entre ser mulher e ser mãe: as mães “reais” das propagandas sempre brilham de beleza física e boa forma, exalam satisfação pessoal plena e auge de sua felicidade individual pelo fato de ter parido (não é comum que outras formas de maternidade sejam retratadas na publicidade, mas retomarei este ponto mais à frente) – o que provavelmente seja verdade para muitas mulheres que são mães, mas como se sentirão aquelas, tendo ou não optado por serem mães, que não se veem refletidas nessa imagem mostrada como tão desejável e almejada? Neste contexto de representações de um ideal de Mulher e Mãe, como encontrar espaço na arena pública para debater questões como a ausência do desejo de ser mãe e suas implicações como o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos, a parca rede de atendimento multidisciplinar para mulheres que sofrem de depressão pós-parto, acesso a métodos contraceptivos e descriminalização do abortamento voluntário?

Ainda se pode apontar uma terceira associação entre o conceito de família tradicional e os núcleos familiares mostrados: ao excluir outros modelos familiares, não só se negam direitos a pessoas que vivem outras realidades em suas relações de parentesco, como também se reforça um estereótipo de família tradicional e seus perigosos derivados, tais como “O Pai de Família” provedor, “A Moça de Família” que tem sua “honestidade” medida pelo recato – e que “é pra casar”, e se transformar na “Mãe de Família”, que vive para a casa e os filhos e nada mais.

Assim, por um mundo com menos “Mães Reais” e mais pessoas reais, encerro o texto de hoje com duas peças publicitárias que procuraram sair do lugar-comum. Não deixo de mencionar que especialmente a segunda campanha (da Gol) foi alvo de muitas críticas de setores do movimento LGBTTTQI, por retratar um casal de homens gays no Dia das Mães, em vez de mostrar várias possibilidades de mães lésbicas, bis, trans e interssex. Mas, sem deixar de considerar os pontos levantados nestas críticas e a necessidade de ouvir as vozes de quem vivencia a realidade de pertencer a minorias, a peça tem, a meu ver, o mérito de falar de adoção e de mostrar outros formatos de família, realidade na qual “A Família Brasileira” ainda patina tanto para reconhecer e respeitar.

Com mais abraços e menos cartões de shopping, que seja um belo domingo para todos que querem estar perto de quem quer que sintam como sua família.