“Reparou o padrão? Beijo e depois chute.”: padrão de violência não é romance

Cena 1: um porão, onde uma garota sozinha é surpreendida pelo ex-namorado que entra no local pelo teto.

Ela fica visivelmente enfurecida com a presença dele e passa a ameaçá-lo com uma faca, ordenando que vá embora.

Os amigos do rapaz – dois meninos e duas meninas – , que até então o aguardam do lado de fora, entram no lugar e rendem a garota, sendo tudo filmado por um dos amigos. Toda a ação é supervisionada por um adulto, que os orienta e incentiva.

A garota rendida grita e se debate. Uma das meninas que a seguram propõe: “Vamos ter que fazer como o Capitão Nascimento: põe ela no saco.”

Ensacada, e sempre aos gritos e tentando escapar, a vítima é carregada pela rua, sob os olhares surpresos dos transeuntes. “Não é nada, gente! É só uma gata selvagem que a gente vai levar pro zoológico!”, explica um dos sequestradores. Ninguém intervém, deixando a menina à mercê de seis algozes: seu ex-namorado, os quatro amigos, mais um adulto.

A moça é colocada no porta-malas de um carro, sob beijos forçados do ex-namorado, enquanto os amigos dele conduzem o veículo.

Corta.

Cena 2: o carro chega em um lugar ermo, à noite.

A garota ensacada é retirada do porta-malas, sempre se debatendo e gritando por socorro. “Nada de mão-boba com a minha namorada!”, adverte o ex-namorado da vítima, que conduz a ação.

O adulto que acompanha os adolescentes sequestradores sugere que o ex-namorado da vítima a leve para o banheiro feminino do lugar onde estão, pois foi lá que se conheceram.

A sugestão é prontamente aceita: “’É bom para ela se lembrar os bons momentos que tivemos juntos. Vou dando beijinho até ela se acalmar.”

Sempre auxiliado pelos amigos, o ex-namorado sequestrador e a vítima são trancados no banheiro feminino: “a gente é sequestrador, mas é educado!”, diz um dos meninos em tom de piada.

Corta.

Cena 3: vítima e ex-namorado sequestrador estão sozinhos no banheiro feminino.

Ela permanece ensacada e com uma meia na boca, que a impede de gritar por socorro.

O rapaz se dirige à moça: “Agora que estamos só nós, podemos ficar mais à vontade. Você está linda. Vou tirar a meia da sua boca pra gente já pular pra parte em que a gente faz as pazes.”

Ela grita e pede para ser solta. Ele indaga: “E se eu disser que te amo?” E ela retruca: “E se eu disser que te odeio? Você é um sequestrador de ex-namorada!”

Diante da reação da vítima, o sequestrador recoloca a meia na boca dela: “Vamos começar de novo. Agora só eu falo.”

Corta.

Cena 4: vítima e sequestrador continuam no banheiro. 

A moça permanece amarrada dentro do saco e com a meia na boca, enquanto seu sequestrador divaga: “Vamos aproveitar esse clima a dois…foi amor ao 1o chute no saco…”

Entram cenas em flashback de todas as interações do casal: sempre com violências físicas de ambas as partes, e vários beijos e contatos íntimos forçados pelo rapaz, acompanhados de frases como: “Sabe do que você está precisando?”, com reações violentas por parte dela: “Eu falei pra você me soltar!”

De volta ao tempo presente, o sequestrador diz para sua vítima: “Reparou o padrão? Um beijo, um chute”.

Em uma tentativa de escapar, a moça procura seduzir seu sequestrador e enfim o convence a soltá-la. Vendo-se livre, a moça passa a agredir o sequestrador e tentar fugir. Em vão: os outros quatro amigos adolescentes que compõem a quadrilha invadem o recinto e novamente rendem a vítima. O adulto, que acompanha a ação o tempo todo, recomenda: “Nada como uma boa noite no saco para acalmar o espírito.”

Novamente amarrada e com a meia na boca, a vítima é colocada de volta no saco. O ex-namorado a abraça e beija forçadamente, enquanto ela se debate desesperada.

Desfecho: ela passa a noite sequestrada, enquanto o ex tenta convencê-la a reatar a relação.

 

Esta sequência assustadora poderia fazer parte do roteiro de um episódio de Law and Order -Special Victims Unit, ou de Criminal Minds, ambas séries norte-americanas que tem como argumento central a investigação de delitos (frequentemente de natureza sexual) praticados por personagens retratados como psicopatas. Mas a frase que dá título a este artigo é uma fala do personagem Pedro (interpretado pelo ator Rafael Vitti), integrante da atual temporada de Malhação, da Rede Globo. A atração está no ar há quase 20 anos e é direcionada ao público adolescente, e exibida à tarde, naquele típico horário “logo depois da escola”, sendo indicado para telespectadores a partir de 10 anos de idade.

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O personagem Pedro faz par romântico com Karina (papel da atriz Isabella Santoni), e o casal aparentemente tem feito sucesso, sendo apelidado de “Perina”, seguindo o atual modismo das “bradgelinas” (como os tablóides identificam o casal-celebridade Brad Pitt e Angelina Jolie), de se unir os nomes de famosos que formam casais como se os dois fossem uma identidade única – o que já dá um tanto pra pensar. Mas há muito mais o que discutir aqui, e essa fusão compulsória das metades da laranja fica para uma outra vez.

As cenas descritas acima podem ser assistidas neste link. Foram exibidas no episódio do dia 09 de março e vêm sendo bastante comentadas nas redes sociais: com trilha sonora que remete a uma comédia, o sequestro de Karina é intitulado de Operação Donzela de Ferro, e mostrado como um amor romântico demais, no qual a vítima seria o incompreendido Pedro. Na novela, Karina é apelidada de “esquentadinha”, e não é demais notar que a personagem é construída em um estereótipo que seria um avesso das mocinhas tradicionais: de cabelos curtos e pouca maquiagem, a garota pratica muay-thai e é excessivamente agressiva – o exato oposto do que seria normal e esperado, e por isso ela resiste às investidas do “romântico” Pedro.

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O casal, desde o início da trama, é mostrado como um “romance cheio de confusões”(esta reportagem da revista Todateen trata da questão exatamente neste tom), eufemismo para uma violência que no caso das cenas aqui comentadas sequer se satisfaz com o campo do simbólico: as condutas de Pedro e seus amigos são tipificadas no Código Penal como sequestro e até mesmo tentativa de estupro.

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O grave problema de representar como um intenso romance adolescente esse tipo de relação é que condutas extremamente violentas passam a ser inconscientemente internalizadas como normais e aceitáveis. A narrativa ficcional dá um sentido valorativo àquilo que exibe, e daí crescer aprendendo que homem apaixonado e romântico é aquele disposto a tudo – até mesmo a crimes – em nome do “amor” correspondido da vítima é ensinar desde pequeno que essas violências devem ser lidas como manifestações de afeto.

E mais grave ainda é que o produto televisivo Malhação seja direcionado ao público adolescente, que está justamente em fase de formação de valores individuais e que busca se espelhar em comportamentos tido como desejáveis e dignos de aplauso em  ídolos que encontra em celebridades ficcionais ou da vida “real” (irresistíveis estas aspas).

Não é demais transcrever aqui alguns comentários de internautas, extraídos do site oficial da atração:

Aah que palhaçada, eu não perco nenhum capitulo, e acho lindo tudo o que ta acontecendo e tudo o que o Pedro ta fazendo pra reconquistar Karina. Ele sequestrou ela na intenção de tentar retomar o namoro, de tentar fazer com que ela acredite que ele realmente há ama de verdade. Isso não faz mal para ninguém, e é muito diferente da ação de um cara louco, psicopata e que quer fazer qualquer coisa para voltar com a ex, inclusive machuca-lá. E ali não foi bem um sequestro, sequestro a pessoa leva a outra pra um local longe e não para o banheiro da academia onde o pai dela dá aulas de muai thay.

nada a ve ele nao mau trato ela nao ele so tava querendo se desculpar com ela mas ela nao dava a minima pra ela. para pra assistir a novela do começo pra entender e nao ficar falando besteira. So uma coisa querida internautas nao ” Fã’’

concordo plenamente pra isso ser um sequestro de verdade ele usaria ele, estuprava ela e depois jogava ela no mato no mei da rua. E nao aconteceu nada disso. esse povo nao tem o que fazer

Quando se ensina desde criança que amor bom é o amor que leva até as últimas consequências, como convencer a garota da vida real que, aos 14 anos é agredida (psicologicamente, fisicamente ou sexualmente) por um namorado, de que aquela violência não é amor? De que é assim que uma relação violenta progride até a violência letal?

Não é raro que obras televisivas retratem assim relacionamentos de profunda violência. Se já houve acertos em novelas e séries que abordaram o tema da violência doméstica contra a mulher, ainda há escorregões que continuam a legitimar o argumento do crime passional (neste artigo, faço uma breve retrospectiva sobre a representação da violência doméstica contra a mulher na TV).

Podemos alterar o Código Penal. Podemos colocar o quanto quiser de pena para o feminicídio. Podemos criar tipo penal à vontade. Enquanto se continuar a ensinar e aprender que mulher “esquentadinha” se doma na base do tapinha de amor que não dói, continuaremos a, no máximo, punir assassinos. E mulheres continuarão sendo mortas por seus parceiros, em nome do amor.

 

Para saber mais: vale ler a reflexão da Tamara Amoroso Gonçalves neste artigo, vai lá!

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5 comentários sobre ““Reparou o padrão? Beijo e depois chute.”: padrão de violência não é romance

  1. N acho q isso q vc falou tenha algum sentido, quer dizer, isso é uma NOVELA. Quem ensina são os pais, n uma novela teen para adolescentes. Na minha opinião, isso foi levado a sério demais. É uma comédia, e essa parte de “ser beijada a força”. Vc falou mais ou menos isso. Se aquilo é a força, imagina se ela quisesse beijar ele! E tbm, n é só por causa desse episódio de Malhação q as pessoas vão sair sequestrando ex-namorados(as). Eu, pelo menos, n repito as coisas q vejo na tv. Quem repete são as pessoas q n tem opinião própria e família para ajuda-los. É só um programa para as pessoas q gostam se divertirem. E se fosse uma coisa tão ruim assim como a q vc descreveu, acho q n teriam tantos fãs. Mas msm assim respeito a sua opinião, msm a achando meio exagerada…

    • Olá, Carol, muito obrigada pelo seu comentário!

      É claro que não existe uma relação causal direta entre um programa de TV (ou filme, ou livro, ou qualquer obra artística) e um ato violento – aliás, não é o que sustento no texto. É difícil (embora não impossível!) alguém imitar conscientemente uma cena a que assistiu na TV e praticar um crime. Sem dúvida que há uma multiplicidade de fatores envolvidos, como você mesma aponta: o que se aprende em casa, na família, na escola, além de outros meios. E aqui entra a televisão, o cinema, as revistas, os jornais. Os conteúdos que consumimos lançam modas e ídolos, exibem um estilo de vida mostrado como sendo bacana de se seguir.
      Desta forma, ajudam a formar uma mentalidade que vamos seguindo sem consciência, parece que é natural que as coisas sejam assim como TV, filmes, etc nos mostram.

      E aí convido você a pensarmos juntas: como é que incorporamos a ideia de que um crime pode ser visto como uma cena de comédia? Por que essa cena parece tão normal? Será que deveria ser normal? E justamente pelo fato de o programa ter tantos fãs é que, na minha visão, é preocupante…

      Deu na TV agradece a visita, venha sempre!

  2. O senso de humor de quem escreveu, com todo respeito, é péssimo. Detesto malhação assisto ”obrigatoriamente” no trabalho, pois a TV fica na recepção do escritório em que trabalho e acabo conhecendo a história dos personagens. É óbvio que o casal é um casal de comédia, portanto, já seria ideal suavizar o discurso. Tudo bem, achei a cena do sequestro uma cena cheia de problemas, nesse ponto eu concordo. Entretanto, o que mais me surpreendo nesse casal, fora essas nuances, é justamente A FORÇA da personagem Karina, pra mim uma personagem feminista. Uma garota que não abre mão de lutar e de ter o visual que desejar, já passa pras meninas que assistem a noção de empoderamento feminino, a personagem, na verdade, está rompendo esteriótipos. Em relação ao personagem Pedro é um garoto bobão, engraçado, que aceita a namorada do jeito que ela é. Um casal carismático, que na verdade rompe paradigmas, pois mostra uma menina extremamente forte e independente e um garoto sensível, fraco e engraçado. Pra mim isso é anti machismo, o qual estávamos acostumados nas novelas melodramática. Assista, identifique o machismo sim é nossa OBRIGAÇÃO combatê-lo diariamente, mas também sinta a LEVEZA e a graciosidade do casal.

    • Oi, Isabella, obrigada pelo comentário!

      Realmente, o tom de comédia suaviza a violência da cena, e é aí mesmo que vejo o problema. Para ilustrar meu ponto de vista, sugiro a você assistir a algumas séries ou filmes antigos que hoje nos chocam por serem super discriminatórios, apesar de não terem sido encarados assim em suas épocas: apenas para ficar em dois exemplos, cito “A Feiticeira” (exibido nos anos 1960, com uma protagonista obrigada a abrir mão de seus poderes mágicos para ser uma esposa perfeita), e o clássico “O Nascimento de uma nação” (filme de 1915 de David Griffith, que mostra os cavaleiros da Klu Klux Klan como heróis responsáveis pelo nascimento da nação norte-americana ao combaterem os negros).
      Pra ficar um pouco mais perto da nossa realidadde: há cerca de 25, 30 anos, não se via problema algum em associar um estilo de vida saudável ao consumo de cigarro, tipo de abordagem banida hoje.
      E por isso questiono porquê fazer uma cena de violência contra a mulher suavizada pelo tom de comédia romântica… Especialmente quando se mostra uma personagem que tem essa pegada feminista (concordo com você!): por que a menina feminista, cheia de personalidade e atitude tem que ser retratada como “a esquentadinha?” Realmente, tem muita coisa ainda pra gente debater…e agradeço sua contribuição, Deu na TV está sempre aberto pra reflexão.

  3. Adorei seu texto. As crianças que estão em formação hoje devem entender que isso não é amor, muito menos comédia. Esse é um tipo de novela que influência sim, bastante, na vida dos pré-adolescentes. Continue escrevendo e abrindo a mente das meninas, meninos também. Nenhuma mulher deve aceitar um relacionamento abusivo. Parabéns pelo texto!

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