Beijo na boca? Só casando.

Nas últimas décadas, os telespectadores vêm assistindo a uma sensível mudança na teledramaturgia brasileira no que diz respeito à presença de personagens homossexuais em suas tramas. Mesmo observando que as figuras menos estereotipadas ainda precisam disputar espaço e popularidade com representações jocosas e pejorativas, não se pode negar que as novelas vêm garantindo mais espaço para personagens homossexuais e casais de pessoas do mesmo sexo. Seguem aqui alguns dos mais marcantes:

Em 1988, a novela Vale Tudo (Rede Globo) trouxe Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin), que viviam juntas e gerenciavam uma pousada no litoral. O autor Gilberto Braga foi um dos primeiros a colocar em uma trama do horário nobre a discussão sobre direitos sucessórios em casais de pessoas do mesmo sexo, levantada a partir da morte da personagem Cecília.

Em 1995, A Próxima Vítima (Rede Globo) contava com o jovem casal formado por Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes). Na época, os atores relataram em diversas entrevistas terem sofrido hostilidades em razão dos papéis representados na televisão. As dificuldades enfrentadas por cada um dos personagens ao assumir sua orientação sexual para as famílias eram o ponto central retratado no relacionamento dos rapazes.

Em 1998, o casal Rafaela e Leila, vivido respectivamente por Christiane Torloni e Silvia Pfeifer, sofreu tamanha rejeição do público que o autor Sílvio de Abreu optou por incluir as personagens entre as vítimas da explosão de um shopping center. 

Mas essa crescente aparição de personagens homossexuais ainda caminha a passos curtos e lentos no que diz respeito a uma representação ao menos equivalente àquela feita de pessoas em relações de orientação heterossexual. Prova disso é a persistente polêmica sobre o “beijo gay na novela” – debate que o “beijo hétero” enfrentou há cerca de meio século, quando Vida Alves e Walter Forster protagonizaram o primeiro ósculo televisivo do Brasil na novela Sua vida me pertence (escrita e dirigida pelo próprio Forster em 1951), transmitida ao vivo pela extinta TV Tupi. Sob argumentos de que a cena era “forte” e “ousada”, e que “a família brasileira não estava pronta para isso”, a cena não tem registro sequer fotográfico, pois o fotógrafo da emissora acreditava que a imprensa da época jamais publicaria uma imagem tão “polêmica” [1].

A tal ousadia hoje parece superada, já que não se concebe “final feliz” sem o beijo da “mocinha” no “mocinho”. Já o “beijo gay” galgou (e ainda galga) seus degraus para se ver representado na telinha. Em 2003, a novela Mulheres Apaixonadas (Manoel Carlos, Rede Globo) teve entre seus personagens o casal adolescente Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), que protagonizaram cenas com longos abraços e carinhos que deixavam subentendido que ali acontecia um beijo apaixonado entre as namoradas. Mas nunca chegou a rolar pra valer: no último capítulo, as personagens participam de uma encenação de Romeu e Julieta cheia de curiosas simbologias, pois além do clichê do amor trágico e impossível, Rafaela somente entra em cena para substituir o “romeu”original.

Em 2005, os cowboys Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) de América (Glória Perez, Rede Globo) mexeram com o imaginário coletivo sobre masculinidades na mesma época em que o filme O segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005) tratava de tema semelhante nas telas dos cinemas. O filme norte-americano ficou conhecido por ser um dos primeiros do circuito comercial a trazer cenas de homossexualidade explícita. Na novela, a cena do “beijo-final-feliz”chegou a ser gravada com Gagliasso e Cordeiro, mas foi vetada na última hora.

Entre 2011 e 2012, o SBT exibiu com pouco alarde o beijo “pra valer” entre as personagens Marcela (Luciana Vendraminni) e Marina (Gisele Tigre) na novela Amor e Revolução, de Tiago Santiago.

O ineditismo da cena da produção do SBT, todavia, não conseguiu a projeção de uma novela de horário nobre da principal emissora do país. E por isso, somente o beijo entre os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Tiago Fragoso), levado ao ar na novela Amor à vida (Walcyr Carrasco, Rede Globo, 2014) é que ganhou o status de “1º beijo gay da televisão brasileira”:

E, finalmente, na noite de 30.06.2014, a mesma Rede Globo exibiu, com anúncio prévio e divulgação de foto da cena, um tímido beijo entre as personagens Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Muller)[2], da novela Em família (Manoel Carlos), na sequência do pedido de casamento feito pela segunda (homossexual assumida desde o início da trama) à primeira (que inicia a história casada com Cadu, papel de Reynaldo Gianechinni, com quem tem um filho, e de quem se separa ao se descobrir apaixonada por uma mulher).

Entendo ser importante percorrer a trajetória dos personagens homossexuais que relembro neste artigo (e me detive apenas naqueles que me pareceram mais marcantes) primeiro para constatar o quanto tem havido uma maior abertura dos telespectadores (e, claro, de anunciantes que contam com essa audiência) para essas narrativas. Mas, se há pelo menos duas décadas, as telenovelas contam com personagens ou mesmo núcleos homossexuais, acho necessário refletirmos sobre a resistência em exibir um beijo entre os personagens, e, especialmente, em que contexto o público (ou ao menos parte dele) aceitou a exibição deste tipo de cena.

E é neste ponto que arrisco minha interpretação: as cenas dos beijos de Félix e Niko e de Clara e Marina foram inseridas em contextos nos quais se mostravam os casais homossexuais em relacionamentos travados com a intenção de constituir uma família. No caso do beijo entre os rapazes, este se deu em uma cena digna de comerciais de margarina, com empregada cuidando dos filhos do casal e conversas sobre tarefas do cotidiano entabuladas na cozinha. Já Clara e Marina se beijam carinhosamente e sem qualquer arroubo erótico após um pedido de casamento com direito a alianças.

É bem verdade que estes casais homossexuais não são os primeiros da teledramaturgia a serem retratados em relacionamentos estáveis e monogâmicos – e, vale frisar, acredito que esta representação seja importante para desconstruir muitos dos preconceitos do senso comum que envolvem a orientação homossexual. Porém, coloco aqui uma provocação: por que este modelo vem se consolidando como condição de legitimidade para manifestação física de afeto, quando o mesmo não ocorre com os casais heterossexuais retratados na ficção?          O escândalo do primeiro beijo heterossexual exibido em 1951 já não encontra hoje qualquer eco no público, e sequer se concebe uma novela em que “o mocinho” e “a mocinha” não troquem beijos, de preferência, tórridos (aliás, são criticados os casais de protagonistas considerados “sem química”), com ou sem casamento, com ou sem adultério, em cenas que já não chocam (quase) ninguém e costumam ser campeãs de audiência.

E é por isso que insisto: por que a manifestação de afeto físico entre pessoas do mesmo sexo parece depender de uma inserção em determinado estilo de vida para poder ser registrado e exibido?

Aqui arrisco e peço a devida licença para buscar uma reflexão possível nas lições de Michel Foucault [3]:        será que é somente com o casamento e com a família que uma relação homossexual “ganha o direito” de assumir publicamente que sim, existe sexo entre dois homens ou entre duas mulheres?

Talvez ainda precisemos refletir sobre a ideia de família como sinônimo de “moralidade”, “incorruptibilidade”, e como um estilo de vida “virtuoso” por si só. Não apenas para que obras teledramatúrgicas possam ser tão diversas quanto a vida real, mas também porque esta representação sacralizada da família traz consequências políticas. Basta observar nesses tempos de eleições vindouras o quanto a “defesa da família” é uma bandeira preferencial de partidos de todos os espectros políticos, a ponto de se propor em projeto de lei que se defina institucionalmente o que se deve considerar como família – e desde já me comprometo a falar sobre o Estatuto da Família e as implicações políticas dessa mistura de composições da vida privada e familiar usadas como propaganda eleitoral.

Por hoje, acho que podemos fechar esse começo de discussão verificando que sim, é um avanço em termos de desconstrução de alguns preconceitos representar homossexuais em situações menos caricatas e fora do estereótipo jocoso e ridicularizador. Mas é igualmente importante pensar por que é que o beijo entre eles só se aceita “Em Família”.

 

[1] Em seus estudos sobre sexualidade, o autor francês argumenta que a partir do século XIX a medicina começa a construir discursos que consideram determinadas práticas sexuais “normais” e outras “desviantes”, sendo que se categorizavam como normais aquelas realizadas entre casais heterossexuais, monogâmicos e para finalidade reprodutiva, e desviante da “normalidade” o que não se enquadrasse neste modelo. Para quem quiser se aprofundar no tema, esta questão é debatida em História da Sexualidade – volume 1: a vontade de saber, Rio de Janeiro: Editora Graal, 1988.

 

[1] Veja a cena neste link: http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/marina-pede-clara-em-casamento/3466736/

 

[1] Leia aqui entrevista com a atriz Vida Alves, que além do beijo com Walter Forster, viveu também um beijo homossexual com a atriz Geórgia Gomide na novela “Calúnia”: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2014/02/tenho-orgulho-diz-atriz-de-primeiros-beijos-hetero-e-gay-da-tv-no-brasil.html

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s