Novamente (ou ainda?) redução da idade penal como solução: qual problema se pretende resolver?

O programa “Profissão Repórter” (Rede Globo) exibido em 14 de agosto de 2014 tratou com fidedignidade poucas vezes vista em veículos jornalísticos a questão dos adolescentes autores de ato infracional.

Escrevi a respeito da questão da redução da idade penal no artigo abaixo, originalmente publicado no Boletim do IBCCrim de junho deste ano. Vale assistir a reportagem de Caco Barcellos, que ilustra bem minhas reflexões.

A íntegra do programa está disponível aqui:Quem é o vilão da violência na cidade de São Paulo: o adulto ou o adolescente?

*artigo publicado no Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – Ano 22, nº 259, junho/2014 (ISSN 1676-3661)

Introdução

A cada ocorrência pontual de crimes violentos supostamente praticados por adolescentes ressurgem os defensores da redução da idade penal, arguindo-se a brutalidade das condutas para justificar o “tratamento diferenciado” para estes casos “excepcionais”. Um dos argumentos centrais sobre o qual se apoiam os defensores do rebaixamento da idade penal pode ser sintetizado na seguinte assertiva: “As crianças e adolescentes do mundo de hoje têm muito mais acesso a muito mais informação, e por isso sabem o que fazem. Quando praticam um crime, sabem que estão fazendo algo errado. Portanto, devem responder como adultos”.

Este argumento central pode ser dividido em duas ideias:

(i) Que crianças e adolescentes de hoje disporiam de um repertório pessoal amplo o suficiente para discernir condutas “certas” e “erradas”, “boas” e “más”. Como fatores de formação deste repertório pessoal, apontam-se comumente os dados disponibilizados pelas tecnologias de informação (internet, redes sociais, televisão, etc) e a chamada “liberalização dos costumes”, sobretudo no que diz respeito à moral sexual. Abundam argumentos no sentido de afirmar uma suposta “frouxidão de valores”, ou ainda uma “confusão entre liberdade e libertinagem”, que, imagina-se, traria aos jovens da atualidade mais elementos para decidir por esta ou aquela conduta, tornando mais reprovável a opção pela conduta criminosa.

(ii) Via de consequência, se esses jovens dispõem de tantas informações para livremente decidir, e ainda abusam de sua liberdade individual violando direitos de outrem, suas escolhas de praticar ou não um crime devem ser equiparadas àquelas feitas pelos adultos, e se essa escolha lesionar um bem jurídico de extremo valor (que, em tese, são os bens jurídicos objetos de tutela penal), devem responder como um adulto que fez o mesmo tipo de escolha. A este argumento, costuma-se acrescentar que os adolescentes, por não responderem “por nada”, são frequentemente utilizados para encobrir crimes praticados por adultos.

Indaga-se: está correta esta dedução acerca do grau de maturidade destes jovens? E, sendo correta a dedução, é lógica a conclusão de ser justo e útil fazer com que respondam como adultos por seus crimes?

“O jovem de ontem” e “o jovem de hoje”: um mito sem lógica

            A ideia segundo a qual “o jovem de hoje sabe o que faz” procura se justificar, em grande medida, pela disseminação de novos meios de comunicação, tal como a expansão do acesso à televisão aberta e paga, e a internet com suas redes sociais e seu conteúdo quase infinito. É fácil verificar, porém, que “informação” não é equivalente a “formação”. E mesmo “formação” não necessariamente acarreta maturidade de quem a tem. Coloca-se aqui a seguinte provocação: seria o jovem de hoje realmente mais “maduro” e menos “inocente” que esse mítico “jovem do passado”? Não são poucas as estatísticas que mostram que a idade dos casamentos[1] e da entrada no mercado de trabalho[2], tradicionais indicadores de autonomia individual, vem ocorrendo em idade posterior ao limite etário legal para a adolescência. “Maturidade” e “discernimento” costumam ser predicados de indivíduos que vivem de forma autônoma e independente. Por outro lado, reforçar que a “liberação dos costumes sexuais” justificaria um “melhor saber” da infância e juventude atuais é o mesmo argumento que serve aos interesses de quem defende a redução do limite etário para se considerar uma criança vulnerável para fins de caracterizar crimes sexuais.

Não se pretende defender a elevação da idade para imputabilidade penal, e menos ainda redução da idade para configuração dos crimes sexuais praticados contra vulneráveis, mas sim demonstrar a fragilidade do argumento que vincula de forma simplista e imediata a aquisição de maturidade e discernimento à existência de sítios eletrônicos de busca ao alcance dos dedos de quem tem acesso a um computador com internet.

Justamente para se evitar um debate raso (e por isso mesmo perigoso) sobre a maturidade e capacidade de argumentação dos jovens, é prudente deixar seu aprofundamento aos estudiosos do tema nas áreas da psicologia, pedagogia e sociologia, sem deixar, contudo, de fornecer aqui alguns elementos para a reflexão. Mas, para os fins deste trabalho, é mais produtivo adentrar a questão da segunda ideia que compõe o argumento anterior, segundo o qual se os jovens “sabem o que estão fazendo”, portanto “devem ser punidos como adultos”.

A constatação de o adolescente “saber o que faz” parece justificar de per si que sua punição seja igual à do adulto. Vale arriscar aqui uma análise a tal respeito, propondo-se duas possibilidades para justificar a assertiva: a primeira seria a vingança, ou a simples retribuição do mal pelo mal. Já que a punição do adulto seria – ao menos, em tese – mais severa, então que se aplique à criança ou ao adolescente a retribuição na medida da severidade do ato por ele praticado. A segunda seria a prevenção, ou seja, a crença no poder dissuasivo exercido pelo temor da gravidade da sanção imposta.

Todavia, diante destas duas explicações possíveis para o argumento que defende a punição de crianças e adolescentes como adultos, deve se questionar: com que finalidade se pretende aplicar uma sanção que cause um sofrimento maior ao autor de um delito? Viver em uma sociedade que sofre menos crimes? Ou que castiga mais os criminosos? Quais são as evidências empíricas a demonstrar que a possibilidade de envio de uma pessoa para o cárcere – cujas condições de extremo sofrimento são mais que conhecidas – torna os “potenciais criminosos” menos propensos a delinquir, ou fortalece o sentimento de segurança dos “cidadãos de bem”? Afirmar que “se o adolescente sabe o que faz, deve ser punido com severidade” é retórica vazia e que não se sustenta por si só.

Redução da idade penal: medida antijurídica, inútil e socialmente injusta

            Mas não é só: além de ser vazia em argumentos, a proposta de redução da idade penal é antijurídica, é inútil e é socialmente injusta.

É uma proposta antijurídica: a vedação à redução da idade penal decorre da inafastável interpretação do artigo 228 da Constituição Federal – onde se prevê o limite etário de 18 anos para início da responsabilização criminal – como um desdobramento do direito à igualdade, conferindo-lhe natureza de cláusula pétrea. O frágil argumento de que a posição topográfica do artigo 228 da Constituição Federal impediria de considerá-lo como direito fundamental não resiste a uma singela interpretação sistemática do texto constitucional: a criança e o adolescente são seres em fase de formação e desenvolvimento, e, por isso, diferentes dos adultos. A ampliação do acesso a informações e a meios de comunicação não acarreta de maneira causal uma maturidade e uma capacidade de discernimento equiparada à de adultos, principalmente para fins penais: crianças e adolescentes têm a informação objetiva de quais condutas são certas ou erradas, mas ainda não concluíram sua formação subjetiva de forma amadurecida que os torne capazes de avaliar, de fato, a extensão das consequências de seus atos. Por outro lado, o fato de serem indivíduos em processo de formação os torna mais aptos a processos pedagógicos ressocializadores. O princípio da isonomia, que informa o direito à igualdade, não se satisfaz com a mera igualdade formal perante a lei, mas exige que se dê tratamento desigual aos desiguais.  E, vale lembrar, o Brasil é signatário da Convenção dos Direitos da Criança, que, sendo pacto internacional sobre Direitos Humanos, deve ser interpretado como norma de hierarquia constitucional, Alterar a norma contida no artigo 228, CF configuraria, desta forma, flagrante inconstitucionalidade.

É uma proposta inútil: a função preventiva da pena jamais mostrou qualquer resultado em relação aos acusados adultos. Quanto ao argumento de que os adolescentes são instrumentalizados por adultos, que os utilizam para a prática de delitos por acreditarem na impunidade das pessoas com menos de 18 anos, é importante ressaltar a existência de problemas notoriamente graves nas investigações policiais, que recorrentemente se satisfazem com uma confissão – seja da verdade ou não. Além disso, tanto a situação de um adolescente praticar um crime ou assumir falsamente a autoria de um crime praticado por um adulto são situações que já encontram previsão de punição criminal no ordenamento jurídico e não há porque pensar que punir o adolescente da mesma forma que o adulto iria evitar o fato já não evitado pela punição atual. Ademais, deve-se frisar que nada impediria que adultos continuassem a aliciar adolescentes e crianças mais novas para que respondessem por seus crimes, a enfraquecer ainda mais o argumento.

É uma proposta socialmente injusta: punir adolescentes como se pune (mal) os adultos somente fará estender a essa parcela da população a seletividade social e econômica característica do sistema penal. Em pesquisa a respeito de adolescentes em cumprimento de medida de internação, Vania Fernandes e Silva traça uma aprofundada análise a respeito do tema à luz da criminologia crítica e observa que “não representa nenhuma heresia dizer que a delimitação do que é considerado delito é feita pela classe que detém o poder de definir o que é crime, e consequentemente, quem é o criminoso”. [3] A criminologia contribui para o debate ao propor reflexões que demonstram que conceitos como “crime” e “criminoso” flutuam no tempo, na história e na cultura. Nas palavras da autora:

(…) a criminologia crítica contribui par ao entendimento, porém não aceitação, da rotulação e, consequente estigmatização do jovem das classes populares como ‘delinquentes’, ‘desviados’, ‘anormais’, ‘perigosos’, uma vez que é sabido que não são todos os jovens, principalmente aqueles que pertencem às classes economicamente privilegiadas, que cumprem uma medida socioeducativa de internação. [4]

 

Assim, alargar as fronteiras do “público elegível” para a punição penal corresponderá a incluir mais pessoas na exclusão extrema do sistema de encarceramento, o que é também inconstitucional em face dos fundamentos da cidadania e da dignidade da pessoa humana (artigo 1º, incisos II e III da Constituição Federal) e dos objetivos propostos nos incisos I e III do artigo 3º da Constituição, quais sejam, de “construir uma sociedade livre, justa e solidária” e de “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

Reduzir a idade penal não irá solucionar o problema da violência urbana e criará outros, tais como o aumento da população carcerária e a submissão de adolescentes já estigmatizados ao convívio com criminosos. Aponta-se uma “solução” ilícita, inútil e injusta para um problema que sequer se sabe ao certo qual é, pois não há consenso sobre os múltiplos fatores que levam o jovem a delinquir, ou a representatividade dos atos infracionais no universo de crimes praticados, e menos ainda se explorou toda a potencialidade da doutrina da proteção integral que informa o ECA.

Ainda que propostas extremamente punitivas encontrem amplo apoio popular[5] deve-se fortalecer a consciência de que o objetivo comum a todos – ainda que muitos não tenham se dado conta – não é o de viver em uma sociedade mais punitiva, mas sim menos violenta e mais justa.

Referências bibliográficas

LEAL, César Barros; PIEDADE JÚNIOR, Heitor (org). Idade da responsabilidade penal: a falácia das propostas reducionistas. Belo Horizonte: Del Rey, 2003.

OLIVEIRA, Ana Maria Hermeto C. de; NETO, Eduardo Luiz G. Rios; TOMÁS, Maria Carolina. Adiamento do ingresso no mercado de trabalho sob o enfoque demográfico: uma análise das regiões metropolitanas brasileiras. Revista Brasileira de Estudos Populacionais, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 91-107, jan./jun. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbepop/v25n1/v25n1a06.pdf .

SILVA, Vania Fernandes e. “Perdeu, passa tudo!” A voz do adolescente autor do ato infracional. Juiz de Fora: UFJF, 2005.

Porque dizer não à redução da idade penal. Estudo da idade penal. Unicef, 2007. Disponível em: http://www.mpdft.gov.br/portal/pdf/unidades/promotorias/pdij/Diversos/estudo_idade_penal_completo.pdf . Acesso em 11 de março de 2013.

 

[1] Pesquisa realizada pelo IBGE indica que os brasileiros estão se casando cada vez mais tarde. A idade média dos homens solteiros na data do casamento foi de 26 anos, três anos a mais do que fora observado em 2001. Já as mulheres tinham, em média, 28 anos, dois anos a mais do que dez anos antes. Disponível em: www.ibge.gov.br.

[2] No artigo Adiamento do ingresso no mercado de trabalho sob o enfoque demográfico: uma análise das regiões metropolitanas brasileiras, Maria Carolina Tomás, Ana Maria Hermeto C. de Oliveira e Eduardo Luiz G. Rios-Neto apontam que, até 1967, a idade média de ingresso no mercado de trabalho  no Brasil era de 11,21 anos. Em 1983, esta média subiu para 17,30 anos, e em 2001 estava em 19,21 anos.

 

[3] Perdeu, passa tudo! A voz do adolescente autor de ato infracional, p. 32.

[4] Idem, p. 40.

[5] Pesquisa, realizada pelo Senado Federal a respeito da Reforma do Código Penal, revelou que 89% dos entrevistados declararam ser favoráveis à redução da maioridade penal, sendo que 20% das pessoas que responderam a esta pergunta defendem que qualquer pessoa, independentemente da idade, deve ser julgada como adulto.  Íntegra da pesquisa disponível em: http://www.senado.gov.br/noticias/agencia/pdfs/Reforma_do_C%C3%B3digo_Penal1.pdf .

 

Beijo na boca? Só casando.

Nas últimas décadas, os telespectadores vêm assistindo a uma sensível mudança na teledramaturgia brasileira no que diz respeito à presença de personagens homossexuais em suas tramas. Mesmo observando que as figuras menos estereotipadas ainda precisam disputar espaço e popularidade com representações jocosas e pejorativas, não se pode negar que as novelas vêm garantindo mais espaço para personagens homossexuais e casais de pessoas do mesmo sexo. Seguem aqui alguns dos mais marcantes:

Em 1988, a novela Vale Tudo (Rede Globo) trouxe Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin), que viviam juntas e gerenciavam uma pousada no litoral. O autor Gilberto Braga foi um dos primeiros a colocar em uma trama do horário nobre a discussão sobre direitos sucessórios em casais de pessoas do mesmo sexo, levantada a partir da morte da personagem Cecília.

Em 1995, A Próxima Vítima (Rede Globo) contava com o jovem casal formado por Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes). Na época, os atores relataram em diversas entrevistas terem sofrido hostilidades em razão dos papéis representados na televisão. As dificuldades enfrentadas por cada um dos personagens ao assumir sua orientação sexual para as famílias eram o ponto central retratado no relacionamento dos rapazes.

Em 1998, o casal Rafaela e Leila, vivido respectivamente por Christiane Torloni e Silvia Pfeifer, sofreu tamanha rejeição do público que o autor Sílvio de Abreu optou por incluir as personagens entre as vítimas da explosão de um shopping center. 

Mas essa crescente aparição de personagens homossexuais ainda caminha a passos curtos e lentos no que diz respeito a uma representação ao menos equivalente àquela feita de pessoas em relações de orientação heterossexual. Prova disso é a persistente polêmica sobre o “beijo gay na novela” – debate que o “beijo hétero” enfrentou há cerca de meio século, quando Vida Alves e Walter Forster protagonizaram o primeiro ósculo televisivo do Brasil na novela Sua vida me pertence (escrita e dirigida pelo próprio Forster em 1951), transmitida ao vivo pela extinta TV Tupi. Sob argumentos de que a cena era “forte” e “ousada”, e que “a família brasileira não estava pronta para isso”, a cena não tem registro sequer fotográfico, pois o fotógrafo da emissora acreditava que a imprensa da época jamais publicaria uma imagem tão “polêmica” [1].

A tal ousadia hoje parece superada, já que não se concebe “final feliz” sem o beijo da “mocinha” no “mocinho”. Já o “beijo gay” galgou (e ainda galga) seus degraus para se ver representado na telinha. Em 2003, a novela Mulheres Apaixonadas (Manoel Carlos, Rede Globo) teve entre seus personagens o casal adolescente Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), que protagonizaram cenas com longos abraços e carinhos que deixavam subentendido que ali acontecia um beijo apaixonado entre as namoradas. Mas nunca chegou a rolar pra valer: no último capítulo, as personagens participam de uma encenação de Romeu e Julieta cheia de curiosas simbologias, pois além do clichê do amor trágico e impossível, Rafaela somente entra em cena para substituir o “romeu”original.

Em 2005, os cowboys Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) de América (Glória Perez, Rede Globo) mexeram com o imaginário coletivo sobre masculinidades na mesma época em que o filme O segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005) tratava de tema semelhante nas telas dos cinemas. O filme norte-americano ficou conhecido por ser um dos primeiros do circuito comercial a trazer cenas de homossexualidade explícita. Na novela, a cena do “beijo-final-feliz”chegou a ser gravada com Gagliasso e Cordeiro, mas foi vetada na última hora.

Entre 2011 e 2012, o SBT exibiu com pouco alarde o beijo “pra valer” entre as personagens Marcela (Luciana Vendraminni) e Marina (Gisele Tigre) na novela Amor e Revolução, de Tiago Santiago.

O ineditismo da cena da produção do SBT, todavia, não conseguiu a projeção de uma novela de horário nobre da principal emissora do país. E por isso, somente o beijo entre os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Tiago Fragoso), levado ao ar na novela Amor à vida (Walcyr Carrasco, Rede Globo, 2014) é que ganhou o status de “1º beijo gay da televisão brasileira”:

E, finalmente, na noite de 30.06.2014, a mesma Rede Globo exibiu, com anúncio prévio e divulgação de foto da cena, um tímido beijo entre as personagens Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Muller)[2], da novela Em família (Manoel Carlos), na sequência do pedido de casamento feito pela segunda (homossexual assumida desde o início da trama) à primeira (que inicia a história casada com Cadu, papel de Reynaldo Gianechinni, com quem tem um filho, e de quem se separa ao se descobrir apaixonada por uma mulher).

Entendo ser importante percorrer a trajetória dos personagens homossexuais que relembro neste artigo (e me detive apenas naqueles que me pareceram mais marcantes) primeiro para constatar o quanto tem havido uma maior abertura dos telespectadores (e, claro, de anunciantes que contam com essa audiência) para essas narrativas. Mas, se há pelo menos duas décadas, as telenovelas contam com personagens ou mesmo núcleos homossexuais, acho necessário refletirmos sobre a resistência em exibir um beijo entre os personagens, e, especialmente, em que contexto o público (ou ao menos parte dele) aceitou a exibição deste tipo de cena.

E é neste ponto que arrisco minha interpretação: as cenas dos beijos de Félix e Niko e de Clara e Marina foram inseridas em contextos nos quais se mostravam os casais homossexuais em relacionamentos travados com a intenção de constituir uma família. No caso do beijo entre os rapazes, este se deu em uma cena digna de comerciais de margarina, com empregada cuidando dos filhos do casal e conversas sobre tarefas do cotidiano entabuladas na cozinha. Já Clara e Marina se beijam carinhosamente e sem qualquer arroubo erótico após um pedido de casamento com direito a alianças.

É bem verdade que estes casais homossexuais não são os primeiros da teledramaturgia a serem retratados em relacionamentos estáveis e monogâmicos – e, vale frisar, acredito que esta representação seja importante para desconstruir muitos dos preconceitos do senso comum que envolvem a orientação homossexual. Porém, coloco aqui uma provocação: por que este modelo vem se consolidando como condição de legitimidade para manifestação física de afeto, quando o mesmo não ocorre com os casais heterossexuais retratados na ficção?          O escândalo do primeiro beijo heterossexual exibido em 1951 já não encontra hoje qualquer eco no público, e sequer se concebe uma novela em que “o mocinho” e “a mocinha” não troquem beijos, de preferência, tórridos (aliás, são criticados os casais de protagonistas considerados “sem química”), com ou sem casamento, com ou sem adultério, em cenas que já não chocam (quase) ninguém e costumam ser campeãs de audiência.

E é por isso que insisto: por que a manifestação de afeto físico entre pessoas do mesmo sexo parece depender de uma inserção em determinado estilo de vida para poder ser registrado e exibido?

Aqui arrisco e peço a devida licença para buscar uma reflexão possível nas lições de Michel Foucault [3]:        será que é somente com o casamento e com a família que uma relação homossexual “ganha o direito” de assumir publicamente que sim, existe sexo entre dois homens ou entre duas mulheres?

Talvez ainda precisemos refletir sobre a ideia de família como sinônimo de “moralidade”, “incorruptibilidade”, e como um estilo de vida “virtuoso” por si só. Não apenas para que obras teledramatúrgicas possam ser tão diversas quanto a vida real, mas também porque esta representação sacralizada da família traz consequências políticas. Basta observar nesses tempos de eleições vindouras o quanto a “defesa da família” é uma bandeira preferencial de partidos de todos os espectros políticos, a ponto de se propor em projeto de lei que se defina institucionalmente o que se deve considerar como família – e desde já me comprometo a falar sobre o Estatuto da Família e as implicações políticas dessa mistura de composições da vida privada e familiar usadas como propaganda eleitoral.

Por hoje, acho que podemos fechar esse começo de discussão verificando que sim, é um avanço em termos de desconstrução de alguns preconceitos representar homossexuais em situações menos caricatas e fora do estereótipo jocoso e ridicularizador. Mas é igualmente importante pensar por que é que o beijo entre eles só se aceita “Em Família”.

 

[1] Em seus estudos sobre sexualidade, o autor francês argumenta que a partir do século XIX a medicina começa a construir discursos que consideram determinadas práticas sexuais “normais” e outras “desviantes”, sendo que se categorizavam como normais aquelas realizadas entre casais heterossexuais, monogâmicos e para finalidade reprodutiva, e desviante da “normalidade” o que não se enquadrasse neste modelo. Para quem quiser se aprofundar no tema, esta questão é debatida em História da Sexualidade – volume 1: a vontade de saber, Rio de Janeiro: Editora Graal, 1988.

 

[1] Veja a cena neste link: http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/marina-pede-clara-em-casamento/3466736/

 

[1] Leia aqui entrevista com a atriz Vida Alves, que além do beijo com Walter Forster, viveu também um beijo homossexual com a atriz Geórgia Gomide na novela “Calúnia”: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2014/02/tenho-orgulho-diz-atriz-de-primeiros-beijos-hetero-e-gay-da-tv-no-brasil.html