Os inocentes continuam sem saber de nada

            O bordão “sabe de nada, inocente” fez renascer das cinzas um personagem conhecido daqueles que tem seus trinta anos ou mais: Compadre Washington, misto de cantor e mestre de cerimônias do grupo de axé É o Tchan – top da lista de subcelebridades dos anos 1990 – andava sumido da mídia desde que as valeskas e anittas substituíram as sheilas e carlas nos programas dominicais e festas infantis.

Compadre Washington recuperou sua meia dúzia de minutos de fama (pois mesmo com muito otimismo, creio que nem Andy Warhol apostaria que a situação chegasse aos quinze minutos míticos) ao protagonizar uma peça publicitária da empresa BomNegócio.com, na qual lançou o bordão que recheou de conversas em almoços de família a memes de Game of Thrones. A peça mostra um casal e uma criança banhando-se em uma piscina. Quando a moça desce a escada para entrar na água, surge a cabeça de Compadre Washington em um rádio notoriamente antiquado (o velho e bom “três em um”, com rádio, fita cassete e CD, a cara da ultramodernidade tecnológica duas décadas antes de tocadores de MP3 e seus sucessores tornarem o aparelho um trambolho jurássico) e começa a proferir frases típicas das músicas que fizeram o sucesso das dançarinas de shorts curtos e apertados que se chacoalhavam ao som de canções e coreografias de duplo sentido: “eita, mainha! Danada! Que abundância, meu irmão!” A destinatária dos “galanteios” olha incrédula e incomodada. Prossegue Compadre para o marido da moça: “esse aí que é seu marido, é?” E a frase celebrizada: “sabe de nada, inocente!”. A peça se encerra com um corte súbito na fala de Compadre Washington, que enquanto diz “vem! Vem, ordi…” desaparece, e o marido-inocente explica, mostrando a tela do site da empresa anunciada: “Fiz um bom negócio!”.

Para quem ainda não viu, aproveite enquanto o vídeo continua disponível na internet:

Minha sugestão para aproveitar a disponibilidade da peça se refere à recente intervenção do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), que em 28/05/2014 determinou[1] que o comercial fosse retirado do ar ou alterado, por ter considerado “desrespeitosa” e “ofensiva” a palavra “ordinária”. No filme, Washington desaparece antes de terminar de falar a palavra, mas o CONAR entendeu que o termo fica “perfeitamente compreensível” para o público e determinou que a campanha deve ser alterada para continuar a ser veiculada. Segundo consta da notícia, a intervenção do CONAR teria sido motivada pela reclamação de 50 consumidores (homens e mulheres, alega-se) que considerariam o termo ofensivo.

Não há dúvida que o termo “ordinária”, quando aplicado com conotação sexual a uma mulher, no sentido de dizer que ela é comum e vulgar por exercer sua sexualidade de maneira “criticável”, é muito ofensivo. Para quem não tem idade para lembrar da explosão da moda da axé music nos anos 1990, vale explicar: os gritos de “ordinária” eram dirigidos para dançarinas em trajes mínimos, em geral quando estas realizavam os passos mais “ousados” das coreografias, e, quando transmitidos pela televisão, não raro acompanhados de closes ginecológicos e de fazer corar a mais desinibida das chacretes (dessas, para lembrar, é preciso ter um pouco mais de 35 anos…).

Faço esta menção para deixar claríssimo que não defendo o direito de qualquer pessoa chamar qualquer mulher (dançarina de axé, chacrete, médica, telefonista ou dona de casa) de ordinária. E por isso mesmo acho indispensável questionarmos: é este o sentido da peça publicitária, quando Compadre Washington começa a dizer “ordinária” e é interrompido no meio da frase? Vamos pensar juntos.

O chamado “discurso politicamente correto” é frequentemente apontado como uma patrulha chata, desnecessária e superficial, feita por implicantes preocupados em impor o uso de eufemismos inócuos no lugar de termos consagrados pelo gosto popular. Porém, tal discurso pretende, na verdade, interpretar representações de consensos sociais valorativos contidos na linguagem (e, principalmente, na linguagem verbal) – e isto é indispensável para combater discursos de ódio e desconstruir preconceitos e estereótipos.

Que consensos e valorações seriam esses? Um exemplo fácil e que ilustra bem a análise se dá com as expressões “100% negro” e “100% branco”: embora as expressões pareçam equivalentes, o discurso politicamente correto explica que não, não é a mesma coisa dizer uma e dizer outra, pois cada uma contém significados e valorações muito distintos, e quase opostos. Afirmar-se “100% negro” significa referir-se ao movimento por direitos dos negros, e especialmente ao movimento norte-americano, surgido no contexto da segregação racial operacionalizada pelo critério da “gota se sangue”, pela qual se media o quanto uma pessoa seria considerada “colored” (algo como “não-branco”). Assim, afirmar-se 100% negro significava opor-se ao critério racista de classificação. Bem diferente é dizer-se “100% branco”, pois a expressão geralmente remete a palavras de ordem de grupos neonazistas racistas que apregoam a supremacia e a pureza do que chamam “raça branca”.

Ou seja, uma palavra não é só uma palavra: chamar uma mulher de “vagabunda” e um homem de “vagabundo” tem sentidos bastante diferentes, assim como as expressões “mulher honesta” e “homem honesto”. A mera flexão de gênero é suficiente nestes exemplos para demonstrar as cargas valorativas – e por vezes, carregadas de preconceitos – inerentes a muitos termos do dia-a-dia.

Portanto, o chamado “discurso politicamente correto” tem inegável importância, mas só tem efeito se problematizar o conteúdo embutido nos termos e situações. Se não for explicado porque são ofensivos personagens como Crô (homossexual extremamente caricato interpretado por Marcelo Serrado) ou situações como o trem do programa humorístico Zorra Total (onde a piada reside no fato de travestis e mulheres consideradas feias sofrerem abuso sexual em transportes públicos), vira apenas proibição chata, do não-porquê-não. A proibição atinge o significante sem atingir o significado.

No caso da peça protagonizada por Compadre Washington, ocorre exatamente a proibição do significante, sem qualquer reflexão sobre o seu significado. Analisemos as demais peças da campanha, protagonizadas por personalidades em tom de auto-sátira, como Sérgio Mallandro, Narcisa Tamborindeguy, Supla e, mais recentemente, Maradona: todos têm em comum a característica de terem sido populares um dia, realizando trabalhos ou protagonizando situações de gosto duvidoso. Nos vídeos das propagandas, surgem como personificação de objetos já sem utilidade e sem sentido no contexto em que se apresentam, e por isso adequados a transmitir mensagem da empresa: “não se usa mais – faça um bom negócio e se desfaça disso”.

Voltando ao caso da peça protagonizada por Compadre Washington, o significado contido no argumento do filme é: certo tempo atrás era popular – e considerado então engraçado – chamar mulheres de “ordinária” e retratá-las como objeto sexual. Não se usa mais – faça um bom negócio e se desfaça disso. A propaganda não diz que mulheres são um objeto sexual, nem as chama de ordinárias, ao contrário, ridiculariza esta conduta e a representa como ultrapassada.

Palavras e imagens tem conteúdo e são capazes de modificar mentalidades – e propagandas são um instrumento poderoso para isso (como já comentei neste  texto: https://deunatv.wordpress.com/2013/05/15/o-mundo-sem-as-mulheres-e-um-mundo-com-mais-roupa-pra-lavar-e-so-isso/). Pena que neste caso se atentou apenas às palavras, e não ao seu conteúdo – exatamente como aqueles que defendem que dizer “100% branco” é o mesmo que dizer “100% negro”.

 

[1] Veja aqui a notícia no site G1: http://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2014/05/conar-determina-corte-em-comercial-com-compadre-washington.html

 

Anúncios

3 comentários sobre “Os inocentes continuam sem saber de nada

  1. Não gostava do comercial mesmo! Mas a Hipocrisia anda solta! Enquanto isso as próprias feministas fazem uma passeata onde conclama todos as mulheres chamando-as de “vadias” esse mundo tá ficando louco!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s