Menino não chora

Neste último dia 08 de março, Dia Internacional das Mulheres, muitos textos e eventos (inclusive um de que participei, e logo compartilharei o material com todos aqui no Deu na TV) se dedicaram a falar das mulheres, de nossas lutas, dos avanços e dos obstáculos ainda a se enfrentar.

Muitas boas vozes colocaram palavras de peso sobre todos os percalços sofridos no universo feminino por conta da persistente mentalidade machista que teima em não se dissolver. Justamente porque tanto já se falou de nós, mulheres, que optei por falar dos meninos nesse Dia Internacional das Mulheres.

Não pretendo aqui, de forma alguma, ofuscar protagonismos e diluir empoderamentos tão duramente conquistados. Mas, sempre sustentei que o machismo é perverso com todas as pessoas, inclusive com aquelas do sexo masculino. E querocolocar esse debate, para, ao menos, tentar acabar com uma percepção, a meu ver, equivocada, de que o “grande vilão” da história de opressão das mulheres seriam os homens, e que, por isso, eles deveriam ser excluídos de uma luta que seria “só nossa”. O debate precisa ser de todos, porque a proposta aqui é justamente erradicar o preconceito, a discriminação e a intolerância.

Para mudar o foco da câmera e observarmos os efeitos nocivos da mentalidade machista no universo masculino, escolhi o trecho inicial do primeiro episódio da série Anos Incríveis. Quem seguiu a série certamente criou uma empatia imensa pelo carismático protagonista Kevin Arnold (personagem interpretado por Fred Savage) e empatia é um ótimo ingrediente para ajudar a entender o olhar do outro: os homens, tantas vezes apontados como os grandes responsáveis pelo machismo, já foram Kevins.

O trecho que selecionei tem, ao menos, três momentos que ilustram bem algumas situações a que homens são submetidos quando prevalece uma mentalidade machista: aos 2 minutos do vídeo, Kevin brinca na rua com seus amigos quando surge Winnie Cooper (interpretada por Danica McKellar), sua vizinha e primeira paixão. Segundos depois, seu irmão mais velho Wayne (o ator Jason Hervey) começa a caçoar do evidente desconforto do menino por estar diante do objeto de seu amor.

O escárnio do irmão de Kevin reflete a mentalidade segundo a qual o homem deve ser aquele sempre pronto para todo e qualquer ato sexual, com qualquer mulher, a qualquer hora. Mostrar-se sempre seguro de si. E ninguém se importa se o homem em questão tem apenas 12 anos: é esperado que ele atravesse um salão de bailinho (ainda existem?) e, mesmo tremendo nas bases, aborde uma menina – que por sua vez, provavelmente foi instruída a “se dar o respeito” e não ser “fácil” – e aguente firme se for rejeitado: menino não chora.

Aos 4 minutos, segue-se a cena da família de Kevin prestes a iniciar o jantar enquanto aguardam temerosos a chegada do pai, Jack (o ator Dan Lauria). Jack é um homem de meia-idade, ríspido com a família e descrito pela voz de Kevin, que narra toda a série em off, como alguém que “trabalha para nos sustentar e portanto não deve ser incomodado” . A série se passa nos anos 1960, quando se começava a discutir o trabalho da mulher de classe média fora de casa, e a família Arnold representa precisamente este padrão: mãe dona-de-casa, filhos, e pai trabalhando para sustentar a todos. Notemos: o sustento de mais quatro pessoas, além dele, depende, exclusivamente da sua força de trabalho. Ele que não levante a voz contra um patrão arbitrário. Ele que não reivindique seus direitos trabalhistas, que se ele não estiver satisfeito, tem muito pai de família por aí que trabalharia pela metade do preço. Não cogite trabalhar naquilo que você sonha e te realizaria pessoalmente, te fazendo um homem mais feliz e que aproveitaria com mais qualidade o tempo em família. Mulher sua não trabalha, meu caro, portanto, engula em seco todos os sapos da firma se quer ser o provedor: homem não chora.

E a terceira cena a que pretendo me reportar está no 7º minuto do vídeo, quando Kevin e seu amigo Paul Pfeifer (Josh Saviano) espiam, escondido, o livro de educação sexual da irmã mais velha de Kevin. São dois meninos que, como qualquer outro menino dos seus doze anos, estão completamente perdidos com as reações do seu corpo, do seu coração e de sua mente nesses primeiros contatos com o outro sexo (e sempre pressupondo que se desejará o contato com o outro sexo, nem pense que você pode querer beijar seu melhor amigo), mas se presume que serão eles quem vão “tentar alguma coisa” com as meninas (as quais, de novo, estarão sendo adestradas para, recatadamente, dizer “não”, sob pena de ficar “falada”), e ficar com vergonha, ou ficar sem vontade são coisas as quais os meninos não têm direito: menino não chora.

Sim, existem homens que agridem. Existem homens que cometem crimes bárbaros contra suas companheiras. Existem homens que falam absurdos para as saias e shorts nas ruas.

E, ao mesmo tempo, há homens sofrendo justamente por conta do mesmo machismo que faz mulheres sofrerem todos os dias. Será que está havendo dedicação suficiente ao debate sobre como o machismo, impõe papéis opressores tanto para as mulheres quanto para os homens?

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