A deposição da “suave czarina do luxo”

* Artigo apresentado em 2009 como trabalho de conclusão de curso para a disciplina Antropologia do Direito, ministrada pela professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer e oferecida pelo curso de graduação em Ciências Sociais da FFLCH-USP.

 

                        Este breve estudo tratará do caso da condenação de Eliana Tranchesi[1], dona da butique Daslu, por crimes contra a ordem tributária e contra a fé pública. Pretende-se investigar, ainda que superficialmente, em razão dos limites propostos para este trabalho, as razões que geraram um clamor punitivo (em geral, característico de crimes violentos) em face de um crime financeiro. Não se pretende, em absoluto, questionar o acerto ou erro jurídico da decisão condenatória, mas tão-somente tecer uma análise antropológica da repercussão do caso.

Parte-se da hipótese provisória de que este clamor punitivo (refletido tanto no rigor da pena imposta na sentença – 94 anos e 6 meses – quanto em grande parte da opinião pública) emergiu dos estereótipos desenvolvidos sobre a pessoa de Eliana Tranchesi: de gênero (por ser mulher), de classe (por notoriamente pertencer à camada rica da população) e de raça (por ser considerada branca).

Para tanto, utilizou-se o método de análise de fontes documentais, quais sejam, matérias publicadas na imprensa escrita em três dos principais veículos de São Paulo (os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo e a revista semanal Veja[2]) a respeito da prisão de Eliana, e ainda uma matéria publicada sobre ela na Revista Veja – Especial Mulher, do ano de 2003, dois anos antes do início das investigações policiais[3] que culminaram no processo-crime que a condenou.

Iniciamos pela discussão da reportagem publicada na edição especial Veja Mulher (2003), intitulada “Madame que faz” e que resume a construção da imagem de Eliana Tranchesi, onde se origina, segundo nossa hipótese, o desejo de punir exemplarmente. Na reportagem[4], Eliana é descrita como uma “jovem senhora, dona de butique”, “loira, bonita e bem cuidada” que “em tese, nem precisaria trabalhar, não fosse por uma anomalia biográfica: a certa altura da vida, descobriu-se uma comerciante de mão cheia”(destaques nossos). A matéria relata que são seus amigos pessoais personalidades associadas à elite socioeconômica nacional[5]. Não se deixa, ainda, de mencionar os filhos e seus hábitos religiosos.[6] Constrói-se, enfim, o mito da mulher, gênero historicamente dominado, que se lança à posição de dominadora, por ser rica (classe historicamente dominadora) e branca (raça historicamente dominadora, com o bônus de espelhar o padrão estético dominante – “loira e bonita”), e ainda virtuosa (posto que mãe e religiosa, afastando-se qualquer atributo de sexualidade reprovável, apto a denegrir seu caráter). Torna-se, enfim, aquela ocupa um lugar social tradicionalmente masculino ao lançar-se com sucesso no mundo empresarial.

A imagem que posteriormente se constrói da condenada à prisão não foge a esse sentido. Ao contrário: nas reportagens analisadas,ser mulher, ser rica e ser empresária foram os fundamentos que justificam o desejo da punição exemplar.

Chamam a atenção as seções em que foram inseridas as reportagens a respeito da prisão: longe das páginas policiais, a Folha de São Paulo alocou sua matéria no caderno “Dinheiro”, a exemplo do Estado de São Paulo, que o fez no caderno “Economia”. A Revista Veja, por sua vez, continua entendendo Eliana Tranchesi como uma “anomalia biográfica”: sua reportagem foi publicada em seção “Especial”.[7] Em outras palavras, tem-se que Eliana repetiu a regra presente no imaginário coletivo de a criminosa mulher ser a exceção[8], reforçando a ideia de que “a mulher criminosa recebe estigmas próprios de estruturações de gênero específicas de cada época”[9]. Por fim, citam-se as declarações do Procurador da República autor da denúncia contra Tranchesi, de que finalmente a Justiça começa a atingir “os fidalgos”[10], considerando “corajosa”[11] a decisão da juíza, que por sua vez, destacou a “ganância”[12] da ré. Soam como a comemoração do proletariado pela queda da czarina, protestando por sua execução em praça pública.

Referências bibliográficas

 

ANDRADE, Bruna Soares Angotti Batista de – A Criminalização da Mulher no Brasil. O processo de criação dos presídios femininos na primeira metade do século XX e a institucionalização da criminosa. Projeto de Pesquisa aprovado no processo seletivo para ingresso no mestrado no PPGAS-USP, agosto, 2008.

Fontes pesquisadas

Estado de São Paulo.

Eliana Tranchesi, dona da Daslu, é presa e levada ao Carandiru. (edição de 26 de março de 2009). Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,pf-prende-dona-da-daslu-e-mais-duas-pessoas,345186,0.htm . Último acesso em 25/06/2009.

Folha de São Paulo.

Dona da Daslu é condenada e presa.(edição de 27 de março de 2009). Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/inde27032009.shl . Último acesso em 25/06/2009.

Revista Veja.

Madame que faz. (reportagem publicada na edição especial Veja Mulher, agosto de 2003). Disponível em http://veja.abril.com.br/especiais/mulher_2003/p_026.html . Último acesso em 25/06/2009.

A queda da casa do luxo. (reportagem de capa da edição de 1º de abril de 2009). Disponível em http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/010409/sumario.shtml . Último acesso em 25/06/2009.

 

 


[1] Adjetivação dada a Eliana Tranchesi em reportagem feita pela Revista Veja em 2003, no Especial Mulher

[2] Os links das reportagens utilizadas nas análises está disponível nas referências bibliográficas.

[3] Esta investigação foi batizada de “Operação Narciso”, em curiosa alusão ao mito grego símbolo da vaidade e egocentrismo humanos que, embevecido do reflexo da própria imagem nas águas de um lago, acaba afogado por elas. Em razão dos limites deste trabalho, não serão desenvolvidas maiores reflexões sobre o tema, mas não se poderia deixar de fazer uma menção à escolha do nome da operação policial que fez ruir um dos paradigmas da vaidade estética e ostentação das altas classes brasileiras.

[4] Perfil – Madame que faz. Edição Especial – Veja Mulher, agosto de 2003. Todos os trechos a seguir colocados entre aspas foram extraídos textualmente da reportagem em referência.

[5] Como o ex-senador Antônio Carlos Magalhães e o empresário Abílio Diniz. Constam ainda como suas funcionárias nomes como Carolina Magalhães (neta de ACM) e Sophia Alckmin (filha do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin), descritas como “moças bonitas e chiques”. Outrossim, a “grande virada” de sua loja é atribuída à Era Collor, já então ícone da elite política corrupta.

[6] “Religiosa de ir à missa todo domingo.”

[7] Que se inicia, aliás, com a frase: “Nunca se viu coisa assim: quase um século de prisão”. Um dia a casa cai. Cai? Ironicamente, a matéria foi publicada no dia 1º de abril de 2009.

[8] Ou seja, ocupando um lugar social masculino, desta vez, no crime.

[9] Bruna Andrade, A Criminalização da mulher no Brasil, p. 12.

[10] Revista Veja.

[11] Folha de São Paulo.

[12] Idem.

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