Sobre meninas, meninos e o amor, o estranho amor*

(* O título desta coluna faz referência ao filme “Amor, estranho amor”, de 1982, que se notabilizou  por uma cena de sexo protagonizada por Xuxa Meneghel e pelo ator Marcelo Ribeiro, que tinha então 12 anos)

 

Nesta semana, tomou conta das redes sociais a história “do tal Laércio-do-BBB”. Segundo cenas exibidas no (tornado) tradicional “reality show” da Rede Globo, o participante, de pouco mais de 50 anos de idade, afirmou que gosta mesmo “é das ‘novinhas’”, que já teria tido namoradas com idades em torno de 15, 16 anos, e ainda que , algumas vezes, teria precisado “embebedá-las para ‘facilitar as coisas’”. As declarações geraram reações de outros participantes do programa e também nas redes sociais, que acusaram Laércio de “pedófilo”, especialmente após divulgação de conteúdos de suas páginas em redes sociais, com imagens de garotas adolescentes em poses sensuais.

Nesta terça-feira (02/02/2016), Laércio foi eliminado do programa pela votação do público. Na manhã seguinte, iniciando o percurso próprio da categoria “ex-BBB”, participou do programa matinal “Mais você”. Antes da exibição de sua participação no programa conduzido pelos apresentadores Cissa Guimarães e André Marques, foi veiculada uma entrevista com a advogada Silvana Góes, para que esta explicasse as implicações jurídicas da pedofilia. Explicações técnicas apresentadas, e pedofilia juridicamente afastada, todos voltam sorridentes à mesa do café-da-manhã cenográfico enquanto papeiam sobre as possibilidades do relacionamento de um adulto com adolescentes: Cissa Guimarães assevera ter “vários amigos de 17 anos”, e Laércio afirma que “hoje em dia esse pessoal mais novo tem muita informação e sabe muito bem o que é certo e o que é errado”.

(A participação de Laércio no “Mais você” pode ser assistida neste link: http://globoplay.globo.com/v/4783508/ )

assunto é polêmico e espinhoso. Por isso mesmo, importante falar a respeito com a sobriedade exigida, e minha sugestão é que dividamos nossa conversa em duas etapas: primeiro, se podemos ou não classificar juridicamente como pedofilia o fato de um homem de 50 e tantos anos namorar uma adolescente dos seus 16. E, independentemente da classificação jurídica da conduta descrita, que reflexões podemos extrair do episódio?

A pedofilia é um tema frequentemente objeto de debates, e não é raro ouvirmos as pessoas se referirem ao “crime de pedofilia”. Mas o que é a pedofilia? Já tive oportunidade de tratar do tema no artigo “Lobo Mau”[ leia aqui: embed]https://deunatv.wordpress.com/2013/09/26/lobo-mau/[/embed]

, e lá explico o seguinte: os manuais de medicina legal utilizam o termo pedofilia para designar a atração sexual que adultos sentem por crianças (em idade impúbere), e classificam esta característica como um comportamento anormal ou desviante.

Este sentimento de atração por crianças não é criminalizado de per si, ou seja: o que está no âmbito da fantasia sexual de cada um (seja ela considerada “desviante” ou não), não pode ser objeto do direito penal.

Mas quando essa atração se transforma em ação, aí sim a legislação prevê uma gama de condutas criminalizadas. Se a pedofilia em si não é crime, a conduta do pedófilo que põe em prática o seu desejo, por exemplo, armazenando imagens pornográficas contendo crianças ou adolescentes, ou assediando-os com propostas de atos libidinosos, ou até mesmo chegando ao limite de manter com eles relações sexuais, mesmo que consensuais (o que configura o chamado “estupro de vulnerável” se a vítima tiver menos de 14 anos), pratica crime.

Portanto, a explicação da advogada Silvana Góes foi irretocável do ponto de vista jurídico (e entendo que o papel dela no programa não deveria ser nada além disso). Há que se ponderar, todavia, que o roteiro de entrevista da advogada convenientemente omitiu a questão de “embebedar as meninas para facilitar as coisas”. Esta conduta, assim como fazer sexo com pessoas menores de 14 anos, também é classificada juridicamente como “estupro de vulnerável”: o artigo 217 do Código Penal determina que, manter qualquer tipo de contato sexual com pessoa que, por qualquer motivo, não pode oferecer resistência (por exemplo, por estar dormindo, ou em coma, ou sob o efeito de qualquer droga psicoativa), configura crime de estupro. Só que, nesta hipótese da impossibilidade de resistência, a configuração do crime independe da idade da vítima e de quem tenha sido a iniciativa de consumir bebida alcoólica ou outra droga. Em outras palavras: para o Código Penal, embebedar uma menina de 16 anos para conseguir transar com ela, ou se aproveitar de uma mulher de 35 que deliberadamente encheu a cara em uma festa e manter relações sexuais sem que ela consiga dizer “não”, tem o mesmo nome e a mesma pena: estupro de vulnerável, com pena de 8 a 15 anos de reclusão.

Portanto, em termos jurídicos, temos que a idade que o Direito Penal passa a considerar válido o consentimento para a prática de quaisquer atos sexuais é de 14 anos (aliás, vale lembrar que foi somente a partir de 2009 que o Código Penal passou a considerar crime manter relações sexuais com pessoas de idade entre 14 e 18 anos em situação de exploração sexual, no artigo 218-B, § 1º, CP). Se houver droga ou bebida envolvida, tanto faz a idade, pois a perturbação psíquica causada pelo consumo de entorpecente invalida o consentimento da vítima, da mesma forma que a idade inferior a 14 anos.

Com essas informações, acho que estamos conversados quanto aos aspectos técnico-jurídicos a respeito do consentimento para atos sexuais. Sendo assim, pensemos juntos: que reflexões tiramos disto tudo? Afinal, se não é crime, há problema ou não em um homem de 50 anos se relacionar com uma adolescente? Se todos os envolvidos têm a idade que a lei prevê para exercer um direito, não seria o caso de deixar a liberdade individual de escolha solucionar a questão?

Poderíamos estar falando do direito de dirigir veículo automotor, ou de votar. Mas, no caso, estamos falando de direitos sexuais. E aí não tem como deixar de fora o debate sobre as diferenças construídas sobre os gêneros: é válido afirmar que, social e culturalmente, homens e mulheres são igualmente tratados a respeito de suas escolhas sexuais?

Um exercício sempre útil para examinar se a questão de gênero faz ou não diferença em determinada situação é a inversão dos gêneros dos protagonistas: se a narrativa ganhar conotações diferentes em decorrência desta inversão, significa dizer que há expectativas diferentes para homens e mulheres colocados em uma mesma situação social – e, portanto, construiu-se ali uma relação desigual entre homens e mulheres. Então, vamos lá: como seria socialmente vista a relação entre um adolescente de 16 anos e uma mulher de 50, que declare gostar de “novinho”? (para nem entrar no mérito de embebedar a outra pessoa para “facilitar as coisas”, que, como já vimos, configura crime de estupro independentemente da idade da vítima, além de ser um crime em si ministrar bebida alcoólica para criança ou adolescente consumir a qualquer pretexto).

Teríamos conteúdo suficiente para outro texto se fôssemos discutir as muitas variações de conotação moral dada pelas reações sociais a um relacionamento e outro. Mas, para a conversa de hoje, creio ser suficiente partirmos do pressuposto que estes relacionamentos seriam vistos de forma diferente, e essas diferentes visões decorreriam, em grande medida, das diferentes concepções (ainda) vigentes sobre a liberdade sexual de mulheres e homens.

Para que a escolha sobre qualquer coisa seja livre, é necessário que se disponibilizem todas as opções existentes a quem escolhe. Se, em uma mesma situação, uma pessoa tem à sua disposição mais opções de escolha do que outra, as pessoas envolvidas não estão em igualdade de condições: uma delas terá mais poder de escolha do que a outra.

Ainda neste século XXI recaem sobre as mulheres julgamentos morais sobre suas escolhas sexuais diferentes daqueles que recaem sobre homens. Isto implica uma assimetria de poder neste campo. Quando a esta assimetria se sobrepõe a inevitável experiência de vida cronológica que um adulto terá em superioridade em relação a um (a) adolescente, aumentam as chances de haver um exercício de poder.

Acho razoável concluir, desta forma, que não é a mesma coisa “ter vários amigos de 17 anos” e um homem adulto namorar uma adolescente, pois as conotações decorrentes do gênero não são as mesmas nas duas situações. Se é verdade que este modelo de relação foi considerado normal – ou seja, adequado à norma – por muitas gerações, em que um sem-número de casamentos foi celebrado exatamente nesses termos, é importante refletirmos o que essa “normalidade” reproduz das relações de poder.

Como e porquê normalizamos tudo isso?

E mais: será que a lei penal é o melhor caminho para “desnormalizar”, por meio de outra norma… penal?

Continuamos essa conversa na próxima coluna!

Julgar é humano.

Hoje, Deu na TV  fala sobre o que dá na TV on line: o canal de humor Porta dos Fundos publicou recentemente o vídeo Pena:

Arrisco dizer que o pessoal do Porta teve uma boa assessoria de alguém do universo jurídico, e mais, soube aproveitar com maestria o conteúdo – vamos combinar que fazer rir falando de dosimetria da pena não é tarefa das mais fáceis.

O esquete mostra exatamente um juiz realizando a dosimetria da pena privativa de liberdade, correspondente à elaboração da parte final da sentença condenatória, em que o magistrado deve dosar a quantidade de tempo máximo que a pessoa condenada permanecerá encarcerada, justificando nos termos da lei cada um dos fatos que levou em consideração para majorar ou minorar a pena.

Com a finalidade de tentar, ao mesmo tempo, assegurar alguma uniformidade nas decisões judiciais e limitar o arbítrio e o abuso de poder dos juízes, a lei determina que o magistrado siga determinadas regras para elaborar esse cálculo da pena. Esse “manual de instruções” atende pelo nome de “sistema trifásico”, pois o Código Penal estabelece, em seu artigo 68, três etapas nas quais se definem os fatos que o juiz considerará para impor a pena. Verifica-se, por exemplo, se aquele réu já tem condenação anterior por outro crime, ou se o crime foi praticado com uso de arma, ou se o acusado estava sob domínio de violenta emoção causada por uma provocação injusta da vítima.

É claro que no esquete do Porta se incorporaram elementos que remetem ao absurdo para efeito cômico – evidentemente, não está na lei que o juiz pode aumentar a pena para poder bater o martelo mais uma vez (vale ressaltar, para quem não sabe, que sequer se usam martelos nos julgamentos no Brasil. Já a toga… nossos tribunais parecem ter certa dificuldade em desapegar da tradição). Porém, vários momentos do vídeo não estão muito distantes do que a lei prevê, e, principalmente,  das brechas que o texto legal possibilita para fundamentos questionáveis.

Para ilustrar, relato aqui um estudo de caso que venho desenvolvendo, de um pessoa que foi processada criminalmente por seis roubos a mão armada. Cada um dos crimes foi processado e julgado por um juiz diferente, e as penas impostas variaram entre 5 anos e 4 meses e 7 anos e 1 mês de reclusão, em todos os casos, cumulada com a pena de multa.

A variação entre as penas para um mesmo tipo penal (no caso, roubo com pena aumentada pelo uso de arma) não é um problema; aliás, é justamente isso que se esperaria da atuação judicial: diante do intervalo que a lei propõe de 4 a 10 anos de reclusão para o crime de roubo, o juiz deverá considerar todos os fatores enumerados no artigo 68 (aquele que estabelece o “manual de instruções” para calcular a pena) e dosar a pena para mais ou para menos, conforme o caso concreto.

O que vale observar neste caso em estudo (caso, aliás, que não tem qualquer característica jurídica ou probatória especial, são processos de roubo como tantos há empilhados nos fóruns criminais) foi a fundamentação apontada pelos seis juízes diferentes: foi o julgamento da personalidade do réu como sendo “violenta”, “desagregada”, ” voltada para o crime” ou “malformada” o fator preponderante para se fixar a pena-base acima do mínimo legal.

O que também não seria, em tese, um problema. A pena-base é o nome dado ao patamar inicial escolhido pelo juiz entre o mínimo e o máximo legal, e sobre o qual serão calculadas as majorações e minorações decorrentes de agravantes e atenuantes, e de causas de aumento e diminuição. Para determinar essa pena-base, a lei estabelece que o juiz deve considerar sete fatores relacionados ao acusado como critério: a sua culpabilidade, a sua conduta social, seus motivos, as circunstâncias em que praticou o crime, as consequências do crime para a vítima, o comportamento da vítima e a personalidade do acusado.

Nas sentenças que estudei (como ocorre com muitas outras), nenhum dos juízes levou em consideração qualquer dos outros critérios que não a personalidade do acusado, fosse para aumentar ou para diminuir este patamar da pena-base. Também sequer analisaram as circunstâncias agravantes e atenuantes, correspondentes à segunda etapa de aplicação da pena (com a exceção honrosa de um dos julgadores, que atenuou a pena em razão da confissão do acusado, conforme determina o Código Penal em seu artigo 65). Ao que parece, bastou constatar que aquela pessoa havia praticado um roubo usando uma arma de fogo. Ora, aumente-se a pena pelo uso de arma, como manda a lei. E aumente-se a pena para o réu que, no caso aqui comentado, tem a típica “cara de réu”.

E aí é necessário questionar: mas réu devia ter “cara”?

Certamente, quando se fala que o acusado tem “cara de réu”, não é a mesma cara que o Juiz de Fábio Porchat reconhece como sendo alguém que “gosta de Paralamas? Esse é dos meus.”

Bom, então esses fatores subjetivos, tais como personalidade e conduta social do acusado deveriam ficar de fora da valoração dos julgamentos de processos criminais? Melhor tabelar o quanto de pena se aplica para cada fato? A Justiça pode ser resumida em uma fórmula matemática?

Estes critérios quantitativos da pena servem (ou deveriam servir) como parâmetro de igualdade para que fatos correspondentes a uma mesma previsão legal não tenham julgamentos muito discrepantes entre si, mas não resta dúvida ser imprescindível deixar o espaço para que o juiz exerça a parcela de humanidade que só o olhar de uma pessoa consegue conferir ao avaliar individualizadamente um determinado caso concreto – do contrário, seriam dispensáveis os juízes criminais e qualquer programa de computador faria as contas da pena com mais rapidez e eficiência, embora sem qualquer justiça – que, assim como a injustiça, é um atributo exclusivamente humano. O problema é que a humanidade do juiz está exposta – como a de qualquer outra pessoa – a ideologias discriminatórias, a preconceitos de raça, classe, gênero, orientação sexual etc que, de tão enraizadas se tornam naturalizadas e inconscientes. E o perfil da população carcerária, com ampla maioria de jovens negros e pardos, pobres e de baixa escolaridade, confirmam o argumento do quanto essas discriminações inconscientes contribuem para a situação.

Mas me parece injusto querer atribuir todo esse estado de coisas unicamente a uma certa cultura judicial. Não se pode deixar de falar dos outros atores do sistema de justiça criminal, que poderiam exercer papeis fundamentais para alterar esta situação: por que Ministério Público e defensores não se esmeram em demonstrar na produção de provas todos aqueles outros fatos que podem repercutir no cálculo da pena? E mais ainda, até quando vamos adiar a inadiável discussão crítica para tentar descobrir: afinal, o que queremos da pena de prisão?

Entrevista à Rádio BandNews FM – Bandido bom é bandido morto?

Olá, pessoal!

Neste 05 de outubro, aniversário da Constituição Federal, conversei ao vivo e em rede na BandNews Fm com a Tatiana Vasconcelos sobre a pesquisa publicada pelo Datafolha, segundo a qual se apurou que 50% dos entrevistados concordam com a afirmação de que “bandido bom é bandido morto” .
Para quem não pôde acompanhar, segue aqui o link com a íntegra:

http://bandnewsfm.band.uol.com.br/Noticia.aspx?COD=762982&Tipo=227

O pastor, o jornalista, a rola e uma oportunidade de debate perdida

Esta edição do Deu na TV!  abre uma exceção para o veículo de comunicação que antecede  a “Máquina de Fazer Doido” e apresenta uma edição especial: Deu no Rádio!, e ganhou as ruas e redes sociais a resposta dada pelo jornalista Ricardo Boechat ao pastor-deputado Silas Malafaia. Boechat, um dia antes, havia falado sobre intolerância religiosa, em referência ao episódio da menina candomblecista agredida com uma pedrada no Rio de Janeiro, por dois homens segurando bíblias, segundo noticiado.

Em uma fala articulada e refletida, Boechat expôs os riscos do recrudescimento do ódio religioso:

Malafaia vestiu a carapuça e reagiu por twitter, com a habitual eloquência de pitbull criado no soco, proferindo ataques pessoais a Boechat, xingando-o de “paspalho” e “falastrão”, e, ainda, conclamando o jornalista a um debate. Ao receber a mensagem do pastor, o jornalista devolveu no mesmo nível. Para quem ainda não ouviu, segue aqui a íntegra da querela:

Muita gente vibrou, e uns poucos críticos questionaram (a meu ver, com boa dose de razão) o dito teor falocêntrico e homofóbico da frase no modo imperativo que ordenava  que Malafaia fosse “procurar uma rola”. Ao que me parece, o tema já contou com excelentes contribuições,como esta, no blog Biscate Social Club, e e esta, na coluna Questão de Gênero na página da Revista Fórum, e é por isso que, neste espaço, quero é lamentar a oportunidade perdida de se refletir sobre a gravidade do fato que é ter uma figura pública como Silas Malafaia em arenas de debate tão estratégicas – e por isso mesmo perigosas – como as redes de televisão evangélicas e o Congresso Nacional.

Posso dizer que tenho algum conhecimento de causa para comentar o discurso de Malafaia: no artigo Quando o poder da palavra constrói a palavra do poder tive a paciência que só o interesse científico é capaz de construir para transcrever duas falas inteiras do pastor, com a finalidade de analisar se havia ou não conteúdos identificáveis como discursos de ódio em sua fala. Sim, seu tom é arrogante, prepotente, agressivo e calculadamente insuportável, com sua retórica tão vazia de argumentos quanto cheia de demagogia convincente, derramadas em frases empoladas e cheias de efeito, que, aos ouvidos de um interlocutor desatento, até parecem conter silogismos lógicos, quando, na verdade, apenas atacam o outro debatedor.

Sim, Malafaia é capaz, com sua fala, de despertar o que há de pior em muitos nós (e, garanto, aqui me incluo), de fomentar a mais visceral vontade de bradar o pior xingamento que se puder pensar (daí ser problemático equiparar “procurar uma rola” ao pior que se pode desejar a alguém, especialmente a um homem autoproclamado heterossexual. Mas, como disse, deixo essa discussão para os outros textos que já citei). Até porque, para mim, a rola, procurada ou não, é o de menos. Houve, naquele momento em que Malafaia disparou mais um de seus habitualíssimos impropérios rasos, uma incrível oportunidade de, ao vivo e em rede nacional, esclarecer o grave problema de se ter bancadas religiosas no Congresso. De questionar a não tributação dessas instituições que elegem seus pastores manipulando a fé alheia, e porquê isso é um problema. De explicar aos ouvintes que Estado Laico não é o mesmo que Estado Ecumênico (discuti aqui, quando da candidatura do pastor Everaldo nas eleições de 2014). De alertar para o quanto o discurso de ódio disfarçado de proselitismo religioso é perigoso e antidemocrático. De chamar ao debate não Malafaia, mas seus eleitores (sim, porque ele ocupa uma cadeira no parlamento em consequência do voto popular) e convidá-los a refletir sobre sua escolha política. De parar pra se espantar com o ridículo de um parlamentar mandar recadinho ao vivo para um jornalista e xingá-lo de “paspalho falastrão”, em um debate cuja maturidade faria corar de vergonha alheia os coleguinhas da 7ª série.

Mas ninguém sentiu falta. O aplauso, ao que parece, foi geral:

“Finalmente alguém da grande mídia, falou o que estava engasgado na garganta da maioria dos brasileiros, valeu Ricardo Boechat!”

“Me representou!! Exemplo de Jornalista.”

“Você lavou a alma de muitos brasileiros!”

Não quero aqui tecer críticas profissionais a Boechat – como disse, Malafaia e seus congêneres feliciânicos e bolsonáricos são capazes de despertar o pior em cada um de nós. Mas quero refletir o porquê de tantos terem preferido, em detrimento de qualquer argumentação minimamente inteligente, a simploriedade da retorsão imediata – e com ela se satisfazerem. Por que nos identificamos mais com aquele que solta o “grito preso na garganta” do que com aqueles que querem estimular o pensamento crítico?

Cansamos de pensar? Optamos, definitivamente, por rebater em vez de debater?

Não tenho a resposta. Mas, termino aqui com uma indagação, sugerindo a leitura do texto do grande Roberto Tardelli, colega de coluna no portal Justificando: vamos reduzir nosso exercício da liberdade de pensamento e expressão a determinar que Jô Soares deve morrer e Malafaia deve procurar uma rola?

Consumo, logo existo.

Nesta início de junho de 2015 – que contempla, em menos de 15 dias, a Parada do Orgulho LGBT em São Paulo e o Dia dos Namorados em todo país – as redes sociais, os balcões de padaria, os bancos de táxis, entre outros espaços de debate e embate público, viram-se tomados pela discussão a respeito “da propaganda do Boticário”.

Não pretendo aqui dar continuidade ao debate sobre o conteúdo da peça ser ou não ofensivo, nem entrar no mérito das reações de grupos religiosos e os pedidos de intervenção do CONAR. Até porque, por mais que a peça do Boticário tenha levantado tantas polêmicas, não é a primeira nem a única a retratar pessoas homossexuais em suas narrativas.

Uma das primeiras marcas a mostrar uma família homoafetiva foi a da pomada Nebacetin:

Recentemente, a TAM falou sobre adoção no último Dia das Mães:

Por isso, hoje quero trazer algumas reflexões tecidas ao redor de uma questão central: faz diferença ser retratado em um comercial? E, positiva a resposta, que diferença faz?

Esta questão central se desdobra em outra que a antecede: o que significa ser representado em um comercial?

Quando um segmento social (e aqui, cabe qualquer um: mulheres, crianças, idosos, homens) é representado em uma peça publicitária, significa que a marca anunciada está a comunicar: “este é o consumidor do meu produto”. Exibe-se o consumidor adotando um determinado estilo de viver, mostrado como desejável – e atingível por meio do consumo do produto anunciado.

E aqui se coloca outra pergunta: por que o life style  do consumidor é aquele mostrado como modelar e desejável?

A propaganda para alavancar a venda de produtos faz parte do modo de produção capitalista – e, vale dizer, não vai aqui qualquer crítica ao capitalismo como sistema, mas apenas uma análise: em um sistema no qual a ascensão social a posições de poder se dá pelo acúmulo de capital, o poder se traduz em grande medida pelo o poder de consumir. Daí é fácil entender o apelo do consumo de produtos de luxo que simbolizam o status e o poder de quem os possui. Ser consumidor, portanto, é pertencer ao grupo hegemônico do sistema que se organiza em torno do capital. Ter poder aquisitivo é ser autônomo para construir a própria identidade a partir da compra de símbolos de inserção nesta ou aquela “tribo”, o que, em última análise, implica ter a liberdade de se ser o que quiser, desde que se possa pagar por isso.

Talvez esse ethos do consumo (e do consumismo como ideologia) não seja, em termos de valoração moral, o mais ideal a se perseguir, especialmente porque nas democracias falhas ser cidadão se confunde com ser consumidor (falei sobre a mercantilização dos direitos econômicos e sociais neste texto aqui no blog), mas, independentemente de todas as críticas que possamos tecer nesse sentido, este é o ethos existente e é nele que vivemos, e isto não se pode ignorar. Ser consumidor é ser incluído dentre aqueles que detém o poder, e daí a importância de grupos historicamente vulneráveis serem retratados enquanto consumidores.

Por isso faz toda diferença a forma como essas pessoas são representadas: campanhas publicitárias têm tremendo poder de convencimento. Tanto é assim que campanhas de cigarro foram consideradas um problema e banidas, justamente por seu poder de convencer os consumidores de que o estilo de vida de quem fuma seria glamouroso, não raro associado à prática de esportes e à juventude. No mesmo sentido, propagandas de bebidas alcoólicas vêm sofrendo cada vez mais restrição de espaço e horários para sua veiculação (embora seja curioso notar que o mesmo não se dá com as campanhas publicitárias de medicamentos, que, no máximo, restringem-se a aconselhar aceleradamente que somente “se não desaparecerem os sintomas o médico deverá ser consultado”, em evidente incentivo à automedicação).

Seguindo por esse raciocínio, é problemático, por exemplo, que se retratem mulheres como as únicas consumidoras interessadas em produtos de limpeza (comentei aqui neste texto do blog), ou que seja raro ver negros em propagandas de instituições bancárias, ou ainda que mulheres sejam consumidas com a cerveja anunciada para homens.

E, em contrapartida, pode ser extremamente positivo que pessoas do segmento LGBT sejam representados como consumidores tão desejáveis para as marcas quanto os heterossexuais. É claro que o reconhecimento da igualdade dentro do grupo daqueles que podem consumir está longe de ser suficiente e, de forma alguma, é equiparada à cidadania de direito, ainda tão carente até mesmo de reconhecimento formal na legislação. Mas, se já nos anos 1980 Madonna cantava que “we are livin’ in a material world”, talvez seja um grande passo reconhecer que essas pessoas consomem, e nesse mundo do capital, quem consome, existe.